Governo deixa escolas da capital sem vigilância e expõe crianças à insegurança e à violência


“A gente traz os filhos pra escola pensando que será um porto seguro. Agora isso acabou”, desabafa Aline Cristiane Rosa, mãe de aluno da escola Onofre Pires, localizada na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, região de alta vulnerabilidade social e elevados índices de violência.

Desde o início de março, a instituição está sem vigilante para o período diurno. O problema afeta várias escolas da capital. Por falta de planejamento, o governo não renovou o contrato com a prestadora do serviço e não conseguiu licitar uma nova empresa a tempo.


Um portão cadeado e uma casinha de vigilante vazia dão as boas-vindas para quem chega na escola, que tem um triste histórico de invasões e depredamentos. Em 2014, durante as férias de julho, o prédio foi arrombado e um incêndio criminoso consumiu a biblioteca.

Após o episódio e com o empenho da direção, o serviço de vigilância passou a ser oferecido por 24h, incluindo os finais de semana e feriados. 

“Depois do incêndio, nós recebemos a verba para a construção do muro, que ficou muito baixo e qualquer um pula. Agora eles nos tiram os vigilantes do dia, e quem sabe daqui a pouco até os da noite. Como eu vou receber os alunos sem segurança?”, indaga a diretora, Bruna Ruiz dos Santos.

A notícia da saída dos vigias foi comunicada à escola pelos próprios trabalhadores(as) da segurança, quando receberam aviso prévio.

“A 1ª CRE e a Seduc não nos chamaram para nenhuma reunião, não nos mandaram um único e-mail, só dizem que estão cortando gastos. Com esse suposto corte estão sucateando nossas escolas públicas. É um projeto de fechamento da escola, vão pressionar até a gente não aguentar mais”, salienta Bruna. 

A professora dos anos iniciais, Marema Becker, que está na escola há 16 anos, acompanhou as mudanças no ambiente escolar após o evento traumático. 

“A escola demorou muito tempo para se reestruturar. A direção da época fez todo o esforço para conseguir a vigilância permanente e agora perdemos esses profissionais importantíssimos para uma escola de periferia como a nossa. Estamos bem preocupados com o que vai acontecer daqui para a frente”, expõe a professora.

Outra preocupação de Marema é quanto à segurança dos trabalhadores(as): “nós estamos expostos. Como eu vou abordar uma pessoa e perguntar quem ela é o que ela está fazendo na escola? Os vigilantes são treinados para isso. Nós não.”

Os cerca de 300 estudantes ficam especialmente expostos no intervalo. Devido a obras inacabadas, o recreio tem lugar em um pátio contíguo ao portão.

“Como os vigilantes ficavam ali, a gente não precisava se preocupar. Sem eles fica bem mais complicado. Das nossas salas nós não temos visão nenhuma do portão, agora a gente tem que parar o que está fazendo e ficar cuidando constantemente”, conta a diretora. 

Ajuda da comunidade

Atualmente, a diretora conta com o auxílio de mães para o monitoramento da escola durante a entrada, a saída e até no recreio.

Aline e Catiane, mães que cuidavam o portão durante a nossa visita, se revezam no local porque dizem se sentir mais seguras e estão com medo de deixar os filhos desamparados.

“As crianças de 1ª série são muito inocentes, se chegar alguém oferecendo algo ou convidando para ir em algum lugar eles vão”, diz Catiane Couto dos Santos, mãe de uma aluna do 1º ano. 

Aline Cristiane Rosa, mãe de um estudante autista do 1º ano da Onofre, e que estudou na escola quando criança, lembra da tranquilidade de contar com os profissionais.

“Além de cuidar do patrimônio eles também cuidavam dos nossos filhos. O colégio é imenso, as reformas dos fundos da escola nunca terminaram, nós como mãe não damos conta de cuidar de todos os espaços”, se preocupa Aline.

A área dos fundos da escola, que conta com um parquinho e uma quadra inacabados, e é cercada por um muro sem qualquer serventia para a segurança, é mais uma razão de aflição para a comunidade. 

“O maior motivo para as pessoas pularem o muro é para usarem a quadra. Isso acontecia muito aos finais de semana e também nas férias de julho, mas com os vigilantes isso não aconteceu mais. Agora, nos finais de semana a escola vai voltar a ficar sozinha e já estamos começando a sentir um clima de tensão”, diz a diretora.

Além da situação da segurança, a Onofre, assim como várias outras escolas estaduais do Rio Grande do Sul, enfrenta mais um início de ano letivo caótico. 

“No final do ano nós vamos perder as nossas merendeiras por causa dos contratos por tempo fechado. Temos falta de professor de espanhol e educação física por causa da nova matriz curricular. Agora estamos sem os vigilantes. O meu maior medo é saber que com esse governo, a situação ainda pode piorar”, conta a diretora.

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Instituto de Educação Flores da Cunha também sofre com a insegurança

Uma das escolas mais tradicionais de Porto Alegre, o Instituto de Educação Flores da Cunha, localizado provisoriamente no bairro Rio Branco, enquanto aguarda a entrega da obra do prédio da avenida Osvaldo Aranha, também está sem vigilante durante o dia. 

O diretor da escola, Wagner Inocêncio Cardoso, relata problemas parecidos com os enfrentados pela Onofre Pires, mesmo estando localizado em um bairro nobre da cidade. 

“O turno do dia está sem a vigilância que nos apoiava na portaria. No passado, tínhamos relatos de roubo de celulares dos estudantes no entorno da escola, roubo de automóveis, e até da fiação elétrica. E a CRE só fala em corte de despesas, o que é inaceitável”, expõe Wagner.

Para Ceniriani Vargas da Silva, mãe de uma aluna do 6º ano e representante do Conselho da escola, a situação está gerando muita preocupação entre os pais. 

“O portão tem ficado aberto, há vestígios de que inclusive o espaço está sendo usado por pessoas em situação de rua. Houve até furto de cabeamento na educação infantil. Toda comunidade escolar está muito apreensiva com o descaso”, relata Ceniriani.

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Resposta da Seduc

As denúncias sobre a retirada dos vigilantes diurnos surgiram durante audiência pública da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa, na última terça-feira (3). Após o encontro, a presidente da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa, deputada Sofia Cavedon, representantes de escolas da capital e do interior e da direção do CPERS, exigiram respostas à Seduc.

Quando questionada sobre a falta de segurança, a diretora de Recursos Humanos da Seduc, Cleuza Flesch, afirmou que a Secretaria não retirou os vigilantes das escolas. “Tivemos problemas com processo de licitação, mas já estamos realizando a seleção e nos próximos dias, tanto vigilantes do diurno quanto do noturno serão colocados em várias escolas”, afirmou.

Observando os relatos das escolas presentes no encontro e após visita ao Onofre Pires, o que fica explícito é a total desorganização do governo para o início de mais um ano letivo.

O resultado? Escolas sem segurança, falta de pessoal, estruturas precárias e educadores (as) esgotados.

Resultado da omissão

Um exemplo trágico do descaso da Seduc com a segurança dos alunos e alunas das escolas públicas estaduais foi o arrastão que ocorreu na Escola Prof. Elmano Lauffer Leal nesta sexta-feira (6).

Após dez anos solicitando à Seduc a construção de um muro para a escola, três homens armados invadiram o pátio da instituição, roubaram celulares e agrediram um estudante.

Os alunos estavam no pátio no momento do assalto, porém, não era para a aula de Educação Física, mas, porque faltam professores(as) na escola e eles aguardavam o próximo período no local.

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