A rede estadual de educação não precisa de caridade, mas de investimentos públicos e valorização


Um dia após a prisão do empresário Ricardo Eletro – amigo íntimo de Luciano Huck – por fraude fiscal superior a R$ 400 milhões, o apresentador e pré-candidato à presidência figurou em transmissão ao vivo do governador Eduardo Leite (PSDB) para reproduzir no Rio Grande do Sul o que faz de melhor: assistencialismo e autopromoção com a penúria alheia.

Trata-se de uma parceria com a empresa Eleva – gigante do mercado de materiais pedagógicos cujo principal acionista é o homem mais rico do Brasil, Jorge Paulo Lemann – e a Estácio, um dos maiores grupos do setor, para ofertar aulas remotas a estudantes da rede estadual.

Nós não sabemos se Luciano Huck conhece a realidade da educação pública no Rio Grande do Sul. Mas Leite conhece.

Vivemos em um estado que sequer paga em dia quem trabalha no chão da escola, que não investe o mínimo previsto pela própria Constituição, que corta direitos em meio a uma pandemia, promove um calote histórico para cercear o direito à greve e defende abertamente a redução de salários de uma das categorias mais mal pagas do Brasil.

Sobre isso, nenhuma palavra, nenhum gesto de reconhecimento ou generosidade.

Crise e oportunidade

Mas o educador(a) é mero acessório no sonho do empreendedorismo social. Huck falou demais e deixou clara a sua visão, compartilhada pelo governador: “essa pandemia veio para acelerar o processo de digitalização da educação.”

É uma cruel inversão da realidade. Se há algo que a pandemia demonstrou, é a importância da sociabilidade, da convivência no chão da escola e do acompanhamento presencial em sala de aula.

Mas, se os conteúdos forem ministrados a distância, com aulas gravadas por profissionais de fora, treinados e preparados para o meio, para que servirá o educador(a)?

O Estado economiza em recursos humanos e assegura geração de mão de obra barata e desqualificada para o mercado, enquanto grupos privados valorizam sua marca, obtêm de graça dados preciosos e realizam lucro em cima da comunidade escolar.

Não há de ser, também, mera coincidência que a Fundação Lemann tenha sido uma das principais lobistas da BNCC, aprovada a toque de caixa no governo Temer, que autorizou o cumprimento de até 30% do currículo do Ensino Médio a distância.

Crise e morte para alguns, oportunidade, mercado e lucro para outros. Pouco importa se as oportunidades, em geral, são para quem já as têm de sobra.

Cabe perguntar: os gaúchos tinham consciência de que, ao eleger Leite, entregariam a educação pública aos interesses de uma Fundação privada?

Pedagogia do abandono

Nem Leite e nem Huck têm algo a dizer, também, sobre os quase 300 mil estudantes que sequer conseguiram realizar o primeiro acesso nas aulas remotas por absoluta falta de condições.

Tampouco para os trabalhadores(as) que se viram para cumprir as ordens da Seduc e atender a estudantes com equipamentos próprios, dobrando a jornada e pagando Internet com o salário atrasado, parcelado e cortado.

Enquanto aposta no aprofundamento da miséria de quem faz a educação, o governador celebra a filantropia de milionários em um dos países mais desiguais e com uma das menores taxações de super-ricos do mundo.

Isso quando pagam seus impostos. No Rio Grande do Sul, a sonegação é incentivada e premiada com o perdão de dívidas e refinanciamentos anuais.  Como há sempre a expectativa de um novo perdão, empresários não tem qualquer razão para quitar seus débitos em dia.

Dada a coincidência de datas com a prisão do amigo de Huck, faltou senso de oportunidade para o governador gaúcho. Sobra, no entanto, oportunismo.

Como dizem os liberais, não há almoço grátis. A parceria anunciada saberá cobrar seu preço.

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