Seduc nega matrícula a 283 alunos da EJA da Escola Agrônomo Pedro Pereira, de Porto Alegre


“O EJA pra mim é muito importante por formar jovens e adultos que, assim como eu, não tiveram muitas oportunidades na adolescência e na juventude. Essa formação vai nos permitir que lá na frente a gente veja nossos esforços se transformarem em um bom emprego ou até para entrar em uma faculdade. Se a Seduc não permitir a minha matrícula, vai interferir em todo o meu planejamento para a minha vida profissional a partir de agora”.

Esse é o relato da Adrielle Chaves Monteiro dos Santos, que desde janeiro está tentando uma vaga no Ensino de Jovens e Adultos (EJA), na EEEM Agrônomo Pedro Pereira (APP), localizada no bairro Agronomia, em Porto Alegre. 

Assim como a Adrielle, outras 282 pessoas se inscreveram para estudar em uma escola acolhedora e perto de casa, mas tiveram suas matrículas recusadas pela Secretaria Estadual de Educação (Seduc).

Desde o ano passado, escolas que ofertam esta modalidade vêm enfrentando dificuldades muito além das que surgiram durante a pandemia.

Em 2020, o número de matrículas de EJA na rede estadual caiu 40,9% frente a 2019. O dado é do Censo Escolar 2020, analisado pelo Dieese.

A dramática redução se deve a cortes sistemáticos na oferta da modalidade, incluindo o fechamento de turmas e a vedação de novas inscrições mesmo em escolas de alta demanda.

Em 2021, após a abertura do processo online de matrículas, diversas escolas estaduais relataram dificuldades, como a não oferta de turmas ou a diminuição do número de vagas. 

Na APP, como a escola é conhecida entre os alunos, a situação não foi diferente.

Após os problemas com a matrícula online, a Seduc liberou a instituição para realizar o processo presencialmente. Mesmo com o risco da pandemia, a escola efetuou as pré-matriculas, mas agora, em março, período de homologação das mesmas, viu os alunos se decepcionarem mais uma vez. 

O vice-diretor da APP e responsável pela EJA, Isaque Bueno, lamenta a situação e relembra que a escola é referência no acolhimento desses alunos e alunas. 

“Nós tínhamos doze turmas de EJA com uma média de trinta e cinco alunos por turma. A gente atendia praticamente quatrocentos alunos no turno da noite. Agora o governo homologou somente três turmas, uma de T8 e duas de T9, que são alunos remanescentes do semestre passado, não conseguimos matricular nenhum novo aluno”. 

Isaque ainda complementa: “Eles estão fazendo de tudo para dificultar o acesso desses alunos à escola. Isso é tudo muito perverso. Eles estão afastando os alunos, porque o nosso público da EJA já é um público que recebeu muitos nãos. Quando ele percebe que está começando a ficar muito difícil, ele desiste”. 

Desmonte planejado 

Na última quinta-feira (11), representantes da escola reuniram-se com o coordenador da 1ª CRE, Alaor Baptista Chagas, e durante o encontro ficou bem claro quais as intenções do governo para a EJA.

“O governo está fazendo um desserviço para a educação em nome de qualidade e de números do IDEB. Porque na fala do coordenador hoje para nós, ele disse, com todas as letras, que a EJA atrapalha, que ela joga para baixo os índices do IDEB das escolas”, relatou Isaque logo após a reunião.

No mesmo dia, em nota enviada ao jornal Sul21, a Seduc informou que adiou as inscrições de novas turmas na modalidade EJA para o mês de junho. A justificativa é evitar a evasão diante da crise do coronavírus e incentivar os alunos a prestarem o Exame Nacional Para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja).

A professora Maria Fernanda da Silva Viegas, que leciona português na APP, alerta que o problema da evasão não é de hoje e é consequência das próprias ações do governo com a modalidade.

“O governo não pode achar que abrir uma vaga de Encceja no centro da cidade, com uma parceria público-privado, vai resolver o problema. Não, isso vai aumentar a evasão. E a evasão faz parte da EJA. A gente tem um problema social, de desigualdade, de dificuldades financeiras que fazem com que muitos alunos evadam. Então, a evasão ela já é prevista, né? Tu não podes deixar de abrir uma escola, porque vai ter evasão, porque ela surge justamente para tentar resolver esse problema social”, afirma Maria Fernanda.

O incentivo à realização de provas como o Encceja é reflexo do desmonte planejado dessa modalidade. A escola é parte da vida, a oferta de “testes” que supostamente aceleram o processo, não resolverá a evasão.

Aula de resistência

A APP é referência há quinze anos na oferta da EJA na zona leste da capital e é conhecida pelo acolhimento de alunos vindos de diversos bairros periféricos da cidade e até mesmo de outras regiões que não possuem escolas que atendam esta modalidade de ensino.

Todo ano abrem cerca de 12 turmas que permitem àqueles que não tiveram oportunidade de completar seus estudos no tempo certo vislumbrarem um futuro de oportunidades através dos estudos. 

Em razão das dificuldades enfrentadas para a concretização desses sonhos, a escola criou uma página no Facebook para denunciar o descaso da Seduc. 

A página “Não feche a EJA do APP” apresenta relatos de alunos(as) e ex-alunos(as), de educadores(as) e daqueles que acreditam que a escola é sim o caminho para a mudança.

Em um dos relatos, o Daniel, que espera a sua vaga na APP, conta o impacto dos estudos e da escola na sua vida.

O professor e escritor Jeferson Tenório, patrono da Feira do Livro de Porto Alegre 2020, deu aula na APP durante cinco anos e também deixou sua mensagem de indignação e apoio na rede social.

Se você quiser ajudar a escola, curta a página “Não Feche a Eja da APP” e assine o abaixo-assinado criado pela comunidade aqui.

Ajude também compartilhando as publicações com a hashtag #NaoFecheaEJAAPP.

Quem fecha escolas, abre prisões! 

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