Escolas do núcleo de Caxias do Sul denunciam falta de verba, profissionais e segurança para trabalho presencial


Na manhã desta quinta-feira (2), o 1º Núcleo do CPERS, Caxias do Sul, reuniu direções e representantes de treze escolas da região.

A iniciativa responde a uma das propostas aprovadas no último Conselho Geral da categoria, realizado no dia 24 de junho, que orienta os núcleos a articularem ações de resistência às pressões do governo relativas à sobrecarga de trabalho e à segurança no retorno às aulas.

Os diretores e vice-diretores das instituições compartilharam as pressões que sofrem diariamente com a abertura das escolas para a entrega e recebimento de atividades, a falta de verbas para comprar EPIs e ter Internet de qualidade e a falta de profissionais para higienização das escolas, além da dificuldade de utilizar o Google Classroom.

O diretor geral do 1º Núcleo, David Orsi Carnizella, falou da preocupação com o contágio do COVID19.

“Sabemos da infecção de colegas em mais de uma escola. Isso é muito grave. A CRE diz que não pode fechar as escolas. E mesmo os educadores que tiveram contato com os infectados, tem que ir realizar os plantões. Colocando em risco a vida de mais pessoas ainda”, afirmou.

David destacou também a preocupação com a volta às aulas. “Sabemos que uma hora teremos que voltar. Mas temos que ter o máximo de segurança para voltar, como testagem do Coronavírus para todos os colegas e EPIs para todos os educadores e estudantes. ”

O advogado que atende o Núcleo, Guido Vinicius da Costa, participou da reunião e respondeu algumas perguntas dos participantes.

“É muito complicado o momento para iniciar a abertura das escolas. Já sabemos que os casos só aumentaram e que educadores contraíram COVID19 até mesmo nas escolas. As próprias CREs estão fechando fazendo atendimento somente por e-mail e telefone. Os diretores não podem estar assumindo esse risco, já que nem as coordenadorias estão”, destacou.

O advogado discutiu alguns pontos do protocolo criado pelo governo, incluindo a garantia de material individual e higienizado. “Ele cria um protocolo, mas não passa as ferramentas necessárias para que as escolas cumpram esse protocolo.”

Guido também falou sobre a reunião entre a direção do CPERS e representantes do Ministério Público Estadual, realizada na tarde desta quarta-feira (1º). Os principais assuntos tratados na reunião foram a urgência do fechamento das escolas em defesa da vida e a falta de condições para o trabalho remoto.

Educadores(as) denunciam falta de verba e profissionais para atender o protocolo do governo

A coordenadora pedagógica da Escola Melvin Jones, Aline Miotto denunciou que a escola tem apenas uma funcionária da limpeza para atender 800 estudantes.

“Não tem como termos a higienização necessária se temos apenas uma pessoa para atender a escola. Precisaríamos de no mínimo duas pessoas para medir a temperatura das crianças no portão e verificar se estão de máscara”, relatou.

A diretora da instituição, Leila Ramos afirma que o dinheiro que o governo repassa para a escola não é o suficiente para a compra dos EPIs necessários.

“Gastamos R$ 1.300,00 para compra de máscaras, luvas, e álcool em gel.  Recebemos somente R$ 800,00 do governo, o resto tivemos que tirar da verba do colégio. Sendo que esse é o dinheiro que temos para pagar papel e toner para entregar os materiais impressos para os estudantes”, desabafou.

Aline frisou que 50% dos estudantes da escola não tem acesso à internet. “Para esses teremos que fazer uma revisão. Dar as ferramentas necessárias para recuperar essas aulas. Está bem complicado esse retorno. ”

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A diretora Leila destacou ainda que o curso que o governo está oferendo aos professores não é suficiente para que eles aprendam realmente a plataforma digital Google Classroom. “A maioria não sabe mexer na ferramenta. Essas lives da Secretaria Estadual de Educação não nos ensinam nada”, concluiu.

O coordenador pedagógico da Escola Presidente Vargas, Rafael Nunes, destacou a preocupação com os contágios do Coronavírus na cidade de Caxias do Sul. “Talvez a gente pule da bandeira laranja para preta, pois os casos só aumentam. ”

Sâmara Becker de Lima, vice-diretora da escola no turno da manhã apontou que a instituição, além de enfrentar todos os problemas relatados pelos outros colegas, ainda está sem a vice-diretora do turno da tarde, pois a educadora está em tratamento de câncer. “A demanda é grande. A CRE cobra muitas coisas. A solução que eles deram foi que eu assuma o financeiro, mas eu tenho 20h e não 40h no Estado”, afirmou.

O ex-diretor do 1º núcleo, Antônio Staudt é o atual diretor da Escola Clauri Flores. Ele conta que está evitando ao máximo chamar os colegas nas terças e quintas como a CRE exige para os plantões.

“Estamos expondo todo mundo e os casos só aumentam aqui no Rio Grande do Sul. Isso é muito preocupante. Se todos os diretores tivessem a mesma postura de não abrir as escolas e atender somente de forma remota. Eles teriam que aceitar”, observou.

“Os diretores têm que se unir, falar a mesma língua para nós conseguirmos alguma coisa”, apoiou a vice-diretora da Escola Victorio Webber, Rosângela Vargas.

A vice-diretora da Escola Olga Maria Kaiser e secretaria geral do 1º núcleo, Alessandra Lazzari denunciou que o governo não repassa verba para o pagamento da internet da escola desde novembro.

“Temos internet só na secretaria, então se os professores quiserem fazer as aulas online daqui não tem como, pois não temos acesso à internet na escola”, delatou Alessandra.

A vice-diretora também alertou que os preços do EPIs feitos no orçamento pedido pela CRE já aumentaram.  “Mesmo que o governo mande a verba para compra dos equipamentos, não será o suficiente, pois os valores já aumentaram”, frisou.

Já a diretora da Escola Galopolis, Grasiela Pasinato diz que é impossível suprir as demandas do decreto do governo para a futura retomada das aulas.

“Temos apenas uma servidora da limpeza pela parte da manhã na escola. Os turnos tarde e noite ficam à deriva. Um medidor de temperatura custa 500 reais. Como vou garantir máscaras para todos se não temos verbas? Como garantir higiene se não temos quem a faça? Nossa curva está aumentando e não achatando. Como garantir a segurança dos estudantes, professores e funcionários?”, indagou.

A coordenadora pedagógica da Escola Helen Keller, Jailza Martins declarou que o governo está retirando os adicionais, mesmo incorporados dos professores em setor de escolas especiais, como é o caso dela. A educadora conta que perdeu cerca de R$ 500,00 com a retirada desse benefício.

O advogado Guido falou da importância dos relatos dos educadores. “Esses relatos são muitos bons para a gente estar compreender a realidade do que está acontecendo.”

“O documento que sairá daqui hoje é importante para termos embasamento para nossas ações, assim como para a defesa dos educadores”, finalizou.

Também participou do encontro virtual a vice-diretora do 1º Núcleo, Ana Paula Santos, que disse estar a disposição dos colegas para os que precisarem.

No fechamento da reunião, o diretor David constituiu uma comissão para formular o documento que deve conter os relatos dessa reunião e da próxima que será realizada na terça-feira (7), com representantes de mais escolas da região.

O documento será encaminhado para a 4ª CRE  e a Seduc.

Escolas não devem realizar plantão sem necessidade, afirma Seduc em reunião com o CPERS

Questionada pela direção central do CPERS na manhã desta quinta, a secretária adjunta, Ivana Flores, foi categórica: “não tem que ir se não tem necessidade. Não temos nem interesse que isso aconteça no frio.”

As escolas só devem realizar expediente presencial em caso de agendamento ou para realizar tarefas importantes. Não podem, portanto, trabalhar em regime permanente de plantão.

A orientação vale para professores(as), funcionários(as) e equipes pedagógicas e diretivas.

Como as orientações contradizem as ordens das CREs, o Sindicato pediu para que a Seduc coloque as diretrizes no papel e as comunique claramente às mantenedoras e à categoria.

Leia a matéria sobre a reunião da direção central com o secretário Faisal aqui.

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