Depressão e problemas financeiros estão entre as principais causas de evasão escolar no Julinho


Enquanto o Estado se abstém de promover políticas para entender e evitar a evasão escolar, educadores(as) vão além das suas atribuições e dão bons exemplos. É o caso da orientadora Gina Marques, do Colégio Estadual Julio de Castilhos, o popular Julinho.

Gina contatou pessoalmente 128 alunos com problemas de frequência para compreender os motivos por trás do afastamento. Mais do que mapear as razões, a iniciativa possibilitou a reversão de alguns casos. A pesquisa identificou que o elevado preço da passagem de ônibus é o principal catalisador da evasão, com 34 alunos justificando as faltas por insuficiência de recursos para arcar com o transporte até a escola.

“Nossos alunos vêm de muito longe pois não há vagas no bairro onde residem. Por isso eu acho que a questão não é fechar escolas, como quer o governo, mas sim abrir. Se o estudante não tem dinheiro para passagem e passa dificuldades para chegar até a escola, são altas as chances de ele desistir e não querer mais estudar”, enfatiza Gina.

Gina também ressalta o alto número de estudantes que relatam doença, ansiedade e depressão. Foram entrevistados 21 alunos nestas condições. Na escola, existem casos de alunos que estudam em domicílio em razão de ataques de pânico e até tentativa de suicídio. “Esses alunos não tem uma perspectiva de futuro. O que vão ser quando crescer? Estão tirando todos os direitos deles”, questiona a orientadora.

Sem política, governo corta

Para a diretora do colégio, Maria Berenice Alves, a falta de uma política pública que dê suporte aos estudantes e evite a evasão é uma das razões para os altos números.

“Aqui nós recebemos alunos de tudo quanto é canto, Canoas, São Leopoldo, Novo Hamburgo, Camaquã… nos últimos anos perdemos muitos deles. Por mais que a causa seja a falta de dinheiro, o estudante precisa se sentir acolhido, mas cortando recursos das escolas o governo não permite isso”, argumenta Maria Berenice.

“A única política que o governo Leite conhece é a da tesoura”, afirma o diretor do CPERS, Daniel Damiani. Em razão da redução do número de estudantes, a Seduc orientou neste mês o fechamento de nove turmas. “O governo olha os números e nem sequer procura conhecer os motivos. A evasão é celebrada, pois facilita o projeto de enxugamento da máquina pública”, explica.

A infrequência serve como justificativa para enturmações sem qualquer diálogo com a comunidade, à revelia da realidade dos estudantes e dos educadores(as). “Nós temos duas turmas de terceiro ano com muita dificuldade de convivência e relacionamento. Se enturmar como é que vai ser o dia a dia desses alunos? Ninguém nos questionou sobre isso”, conta Gina.

O CPERS tem denunciado a súbita explosão de casos de enturmações e multisseriações, bem como fechamento de escolas em toda a rede. Em coletiva na última segunda, o Sindicato comunicou a imprensa sobre a existência de planos para fechar até 5 mil turmas e implantar turno único em 480 instituições, reduzindo drasticamente a capacidade de atendimento da rede estadual.

Somente em Porto Alegre, na última semana, além do Julinho, as escolas Emílio Massot, Santos Dumont, Padre Reus,  e Cândido Godói foram comunicadas pela Seduc sobre a ordem de reduzir turmas. Já na escola Alvarenga Peixoto, a orientação é para unir as turmas de 6º e 7º ano do EJA, a chamada multisseriação – quando alunos de níveis diferentes de escolaridade têm aulas na mesma classe.

Apesar da tendência de queda no número de estudantes da rede estadual ao longo dos anos, 2019 aponta para uma possível reversão na tendência. De acordo com o próprio governo, 30 mil estudantes a mais se matricularam na rede para o atual ano letivo.

O CPERS defende que o Estado estude a fundo o problema da evasão escolar antes de recorrer a soluções tecnicistas e altamente prejudiciais à qualidade do ensino. “Tudo isso significa uma brutal ruptura do processo de ensino e aprendizagem”, comenta a presidente Helenir Aguiar Schürer. “Quando o IDEB gaúcho apresentar um desempenho aquém do desejado, não faltará quem responsabilize os educadores. Nós, apesar dos salários atrasados e congelados, da desvalorização e do descaso, fazemos a nossa parte. E o governo, quando fará a sua?”, conclui.

Abaixo, apresentamos os dados completos da pesquisa sobre evasão levantados pela orientadora educacional.

 

Notícias relacionadas