Com todos os funcionários em grupo de risco, diretora de Portão teme reabertura da escola


“Os dois funcionários da limpeza são do grupo de risco. Assim como vários professores, secretária e supervisora. Eu também sou, pois tenho hipertensão arterial. Mas se eu não abrir a escola, não teria mais ninguém.”

Jurandara Coletti, diretora da escola Pedro Schüler, de Portão, preencheu o questionário Educação e Pandemia no RS, elaborado pelo CPERS, e revelou o quadro dramático vivido pela instituição.

Seu caso reflete a situação da maior parte das escolas estaduais às vésperas do início do calendário de retomada das aulas presenciais proposto por Eduardo Leite (PSDB).

De acordo com análise do Dieese dos dados preliminares da pesquisa, 96% das equipes diretivas afirmam terem educadores(as) que se enquadram nos parâmetros de risco.

Além da diretora da Pedro Schüler, a vice, a supervisora, a secretária, o apoio da Secretaria, a merendeira, funcionários da limpeza e quatro dos 14 professores pertencem a grupos de risco.

Mesmo sem as aulas presenciais, as escolas têm funcionado em dias reduzidos para receber e entregar materiais didáticos e realizar tarefas administrativas. Com os funcionários em risco, ela se vê obrigada a arriscar a própria vida.

A Coordenadoria Regional de Educação (CRE) orienta o atendimento em apenas um dia da semana e em regime de revezamento. Mas, diante do cenário, Jurandara constata ser impossível seguir a recomendação.

A demanda intensa leva a diretora a comparecer com mais frequência. “Acabo vindo mais que um dia na semana porque tem muito trabalho, desde atendimento aos pais e alunos até a entrega de rancho”, detalha.

Sem ninguém para fazer a higienização dos ambientes, o medo com os riscos à saúde da comunidade escolar aumenta.

“Tomo todos os cuidados recomendados. Uso máscara, disponibilizo álcool gel e quando aparecem aqui sem proteção, entrego uma máscara. Mas e a limpeza dos espaços? Não tenho ninguém e a circulação de pessoas aqui é grande”, explica.

O medo é um tema recorrente no período da pandemia.

A pesquisa realizada pelo CPERS captou que 67% dos respondentes – incluindo educadores(as) e pais – se sentem ameaçados ou em risco quando precisam frequentar o ambiente escolar neste momento. Apenas 12% afirmaram não ter medo e 21% disseram que não estão indo à escola.

Para melhorar as condições, Jurandara encaminhou o pedido de um novo funcionário(a) à CRE há quase dois meses. Mas até o momento não houve resposta.

“A escola está suja. Na verdade, cada vez que venho deveria estar junto comigo um funcionário da limpeza. Estou sozinha.  Mesmo quando mandarem teremos apenas um, o que será insuficiente. Precisamos de, no mínimo, dois funcionários, pois o ritmo da limpeza será bem mais intenso.”

“Não recebemos nenhum retorno. Isso nos deixa muito frustrados. É uma situação de abandono. A falta de comunicação é total. Nas lives afirmam ‘estamos todos juntos, somos uma equipe’, mas não é nada disso que acontece”, expõe.

Jurandara também preocupa-se com outras situações que podem colocar em risco a saúde dos educadores, estudantes e familiares.

“Quem vai ficar no portão para medir a temperatura dos alunos? Eles chegam antes do horário de início das aulas. Quem vai cuidar do distanciamento entre eles? Como impedir que não se abracem enquanto estiverem no pátio? Não tem ninguém na minha escola para fazer isso. E não vai ocorrer só aqui, será assim na grande maioria das escolas.”

Mesmo com medo, a educadora coloca os estudantes em primeiro lugar. “A responsabilidade de vir à escola e imprimir os materiais para eles, assim como a de entregar o rancho para os pais, fala mais alto do que a preocupação com a minha saúde.

A insegurança em retomar o ensino presencial neste momento, conforme a educadora, é compreendida pelos pais. “Principalmente os do CPM são contra o retorno antes que se tenha a vacina. Não querem expor os filhos a uma situação de risco de vida. Já disseram que não mandarão os filhos enquanto não tiver proteção e segurança.”

A pesquisa do CPERS também corrobora a informação, apontando que 86% da comunidade escolar não acha possível retomar as aulas sem vacina, e 84% dos pais não levariam os filhos à escola.

Histórico de resistência

No início do ano, a Pedro Schuler já havia passado por uma dura provação; a tentativa, por parte da CRE, de fechar o turno da tarde da escola.

Mobilizada, a comunidade resistiu com o apoio de estudantes e familiares, e barrou o fechamento com apoio do CPERS e da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa. Relembre aqui.

Ao lembrar da luta, Jurandara busca força para não ceder diante dos desafios.

“Espero que esse governo passe voando e que a gente consiga manter os direitos que ele não conseguiu retirar. Vou continuar atendendo na escola, insistindo para que nos mandem funcionário para limpeza e o que for necessário para realizar nosso trabalho com a segurança necessária”, finaliza.

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Dados da pesquisa refletem situação da rede estadual

Entre as equipes diretivas que afirmaram ter profissionais em grupo de risco, 22,4% apontam que mais de 40% do quadro estão na condição.

No gráfico abaixo, o Dieese detalha a situação entre as instituições respondentes.

Quanto à estrutura das escolas para o reinício das aulas presenciais, 91,9% disseram que a instituição não tem recursos suficientes para investir nas estruturas necessárias para receber os(as) alunos(as) e adquirir os EPIs.

Quanto aos espaços físicos para manter o distanciamento social e ambientes arejados, 70% afirmam que a escola não possui.

Sobre os funcionários de escola, 81% responderam que a escola não possui um número adequado destes profissionais.

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