Mostra Pedagógica: uma prática a se tornar permanente


Prezados professores e professoras da Escola Pública do Rio Grande do Sul. Em nome da Comissão Avaliadora da Mostra Pedagógica Estadual/2015, coube-me dirigir algumas palavras de encerramento, neste final de tarde de dezesseis de outubro.
Como de hábito tenho escrito o que falo, por isso vou seguir meus apontamentos. Esta reflexão é fruto de 82 trabalhos lidos anteriormente a esta exposição, e da escuta do relato de 82 projetos por nós visitados nos dias 15 e 16 de outubro.
Não temos dúvidas de que esta Mostra Pedagógica foi uma criação/invenção da atual gestão do CPERS/Sindicato, que se desafiou a olhar para a Escola e seus professores, para os alunos e a comunidade escolar. O que fazem, como se sustentam, e como mantém a cabeça erguida diante das humilhações e circunstâncias atuais, em um ano de profundas contradições sociais, envolvendo o conjunto dos servidores públicos deste Estado? Estas são algumas interrogações que nos fazemos todos os dias.
Ainda que a imprensa tentasse desgastar o papel social da escola, ela é uma Instituição reconhecida historicamente, que incide fortemente na vida das novas gerações, porque acolhe todas as manhãs, tardes e noites, milhares de crianças, adolescentes, jovens e adultos, filhos da classe trabalhadora, para a tarefa da escolarização. O que faz então com tanta gente, idades, culturas, gêneros, raças, religiões dentro de casa? Trata a todos de igual modo? Conhece a realidade de onde vêm seus alunos e professores?
Há pesquisas indicando que Escola usual, conservadora, capitalista (criada e assegurada para os interesses do capital), cada vez mais tem se fechado sobre si mesma, rodeada de cercas e muros, e está desconectada da vida real dos alunos. Com esta postura ela só tem a perder.
A Comissão Avaliadora foi composta por: Celso Stefanoski (SINPRO), Docimar Querubim (Ist. Integrar, Darli Collares (UFRGS), Isabela Camini (Setor Edu MST), Mirna Martinez (UERGS), Nina V. Xavier (AOERGS).
Assim como em outros estados da Federação, aqui no RS ela tem sofrido ataques de todos os lados: professores humilhados com salários insignificantes, escolas com estruturas físicas inaceitáveis, formação de professores insuficientes, insegurança e violência nos locais de trabalho, entre outros conflitos a serem enfrentados todos os dias.
Tendo presente esta realidade, a Direção atual do Sindicato tomou uma decisão, sábia neste momento: Mexer, chacoalhar, movimentar, questionar este espaço educativo, quando propôs um processo de Mostra Pedagógica, cujo resultado viesse ressignificar a Escola Pública deste estado. Contudo, teve uma resposta rápida e bem sucedida: 27 Núcleos participaram do processo entre junho a outubro, somando-se 82 projetos avaliados em âmbito estadual. Este número é bastante significativo, se consideradas as críticas veementemente veiculadas pelos meios de comunicação, na tentativa de destituí-la de sua função social de escolarização, ensino e formação.
Ao propor esta tarefa, neste momento conturbado e contraditório para o Magistério, o Sindicato questionou a forma escolar capitalista, e quebrou em boa media a escola parada, longe da vida, desconectada das práticas sociais ao seu redor. É hora sim de repensar os tempos educativos, a avaliação escolar, os espaços de auto-organização dos alunos, a relação destes com o conjunto da escola que remontam séculos passados.
As diferentes práticas, projetos inovadores, ações que extrapolam os muros escolares, trazidos aqui, dizem que ainda a escola está viva, respira e se movimenta para não morrer. Ela não quer permanecer invisibilizada. Por isso todas as práticas apresentadas, necessariamente devem tornar-se práticas permanentes nas escolas e comunidade.
Foi perceptível pela Mostra que a Escola do RS, por distintos caminhos está ensaiando ligar o ensino com a vida, que pulsa ao largo dela. Os alunos se mostraram protagonistas e sujeitos do processo educativo. Isto quer nos dizer que aprendizagem precisa estar casada com a formação humana. Entre tanto, esta condição precisa ser criada e assegurada com processos permanentes de formação de professores. E, intrínseca relação entre escola e comunidade.
Ainda que seja uma primeira iniciativa, esta Mostra Pedagógica mexeu com a escola, com o trabalho, com o conhecimento, com questões da atualidade, que exigem lutas permanentes e bem planejadas para serem enfrentadas. Muito interessante que a Mostra exigiu e oportunizou a auto-organização dos alunos, estabeleceu nova relação entre professores e alunos, sem exclusão e subordinação àqueles que supostamente sabem, e por tanto, devem ensinar a quem não sabe. Uma professora nos disse: “o aluno aqui sabe explicar melhor do que eu essa experiência”. E, de fato, ele se mostrou conhecedor do que nos apresentava.
Esta Mostra, sem dúvida é um gérmen de uma nova cultura capaz de alterar a forma escolar da escola pública, porque trouxe para o debate temas como: agroecologia, produtos orgânicos, questões do lixo, reciclagem, resgate de brincadeiras antigas, que questionam o tempo das crianças mergulhadas na internet, alienadas do mundo ao seu redor.
Esta Mostra foi apenas o começo, outras terão que ser propostas nos próximos anos, porque os professores e alunos se mostraram dispostas, criativos, e, em condições de melhorar suas práticas pedagógicas cotidianas.
Entre tantos trabalhos significativos e inovadores, lamenta-se termos que fazer escolhas de apenas cinco para serem contadas para o mundo no mês de dezembro, na Costa Rica. Há inúmeras outras experiências de cunho inovador merecedoras de destaque e de premiação. O que vou dizer não quer apenas conformar a vocês, mas o fato de terem trazido e exposto seus trabalhos para visitação, em Porto Alegre, já é uma forma de premiação.
Creio eu, e penso como vocês. O CPERS/Sindicato deve aproveitar esta oportunidade para organizar/sistematizar e divulgar, em livro, todas as experiências que foram mostradas nestes nos dias 15 e 16 de outubro. É importante que vocês se vejam como autores/inventores de trabalhos construídos para produzir um novo conhecimento no interior da Escola Pública.
Considero que este trabalho é um marco importante de entrada e de disputa do Sindicato pelo espaço da escola. Neste meio há muito que fazer e melhorar. Oxalá também venha disputar a formação humana, política e pedagógica permanente de seus professores, discuta o papel da escola na transformação social, e se empenhe na luta e construção de uma escola contra hegemônica ao capital.
Por fim, precisamos dizer que foi um tanto difícil escolher cinco projetos, apenas. Nossa comissão avaliadora recebeu a tarefa de lê-los, ouvir o seu relato e destacar os mais significativos, considerando os critérios pré-estabelecidos. Foi o que fizemos, com rigor e ética. É bom dizer que nenhum de nós pertence à direção do Sindicato, por isso nosso trabalho foi isento de possibilidade de algum privilégio. Tivemos toda a liberdade de agir, sem interferência do Departamento de Educação. Por isso, o resultado deverá ser visto como justo e correto. Esperamos que vocês entendam o nosso papel e fiquem felizes com os resultados. Parabéns aos vencedores!

Isabela Camini – Doutora em Educação pela UFRGS. Assessora de formação de Educadores das Escolas do Campo e formação de lideranças sindicais, integrante da Comissão Avaliadora da Mostra Pedagógica Estadual realizada pelo CPERS

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