“Não sei por que estamos aqui. A ordem é ficar em casa. O próprio governador aparece na TV pedindo pras pessoas ficarem em casa. É contraditório, né?”
Sem aulas, sem alunos, sem trabalho. Em todo o estado, escolas públicas abrem suas portas em meio à pandemia que se alastra exponencialmente no RS e no país.
Apesar de decretar situação de calamidade pública e suspender as aulas, o governador Eduardo Leite (PSDB) obriga funcionários(as) e equipes diretivas e pedagógicas a manter as instituições abertas das 9h às 14h.
“Minha filha é transplantada. A orientação do médico é para que eu fique em quarentena pois ela não resistiria ao vírus”, conta Kátia Amorim Macedo, vice-diretora da EEEF Eva Carminatti, na Lomba do Pinheiro.
Na quarta, o Estado enviou memorando às escolas, orientando o funcionamento “normal” do setor administrativo e da distribuição da merenda.
“A escola já fez tudo que foi solicitado. Não tem mais o que fazer”, desabafa Kátia. Nos dois dias de aulas suspensas, nenhum aluno buscou merenda.
“Nós já tínhamos falta de merendeira, por isso não servimos comida quente, só lanche. Mas ninguém quer sair de casa. ”
Já na quarta-feira (18), último dia de aulas presenciais, menos de 10% dos estudantes compareceram, conta a vice-diretora.
Na instituição, pelo menos cinco educadores(as) continuam trabalhando. Ildo Tavares, secretário de escola, também está indignado.
“Não faz sentido. Todo mundo diz que tem que ficar em casa. Às vezes vem um pai ou mãe e eu tenho que manipular documentos”, comenta. Seu filho, de 18 anos, tem bronquite asmática. “Se ele pegar essa doença, acabou”, reflete Ildo.
Porto Alegre já registra cerca de 40 casos e é uma das poucas capitais a confirmar transmissão local da Covid-19, quando o contágio ocorre sem a necessidade de contato com pessoas que viajaram para outros países.
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Kátia também questiona a finalidade da medida irracional da Secretaria da Educação. “O governador acha que é bom pra ele politicamente manter a merenda. Coloca a nossa vida em risco à toa. Na prática não tem ninguém pra comer”, finaliza.
Nesta quinta, a juíza Andreia Terre do Amaral, da Comarca de Porto Alegre do TJ-RS, intimou o Estado do Rio Grande do Sul a manifestar-se, no prazo de 72 horas, explicando as razões para a manutenção de escolas abertas. A decisão se deu após ação impetrada pelo jurídico do CPERS.
Leia também: Governo quer manter escolas abertas durante pandemia mas sequer repassou verba da merenda
O Sindicato orienta que direções debatam a situação – por meio digital – com seus conselhos escolares e decidam, embasados na autonomia escolar, pelo fechamento total das instituições, protegendo suas vidas e de seus familiares.
Mas o corte do ponto da greve, mesmo com os dias recuperados, também pesa na decisão de trabalhar. “Ele já mostrou que não dialoga. Se a gente não vier, vai cortar nosso salário de novo”, argumenta Ildo.
O CPERS recebeu denúncias de educadores(as) pertencentes a grupos de risco trabalhando em outras escolas. Muitos têm receio de apresentar atestado, uma vez que contratados(as) em licença médica por mais de 15 dias são demitidos.
Nas redes, uma postagem da Seduc pela manhã, no Facebook, causou indignação na categoria.
O CPERS recebeu diversas mensagens de educadores(as) trabalhando em escolas vazias e exigindo o fim da exposição à pandemia.
Leandro Krause, de São Borja, comentou: “Quarentena do Dudu é nos deixar na escola trabalhando, merenda iogurte com bolachinhas. Enquanto isso minha família em casa, e a esposa é do grupo de risco”.
A presidente do CPERS, Helenir Aguiar Schürer, também se manifestou em vídeo gravado em casa. “Infelizmente, parece que Eduardo Leite não preza por nossas vidas”, afirmou.














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