Conexão recusada: curso obrigatório para educadores gera frustração na rede estadual


Frustração, incerteza e angústia madrugadas adentro.

Obrigados a completar um curso online que não funciona, sem orientação da mantenedora e com suporte precário, muitos educadores(as) têm encontrado dificuldades para cumprir a formação continuada imposta pelo Estado no período de quarentena.

Além dos problemas com o ensino a distância, o governo determinou a participação no curso como “atividade obrigatória” no Plano de Trabalho apresentado para o período. 

Imagem cedida por Clarice Dal Médico, vice-diretora do colégio Cândido José de Godói, de Porto Alegre

Bruna Ruiz dos Santos, diretora da escola Onofre Pires, de Porto Alegre, relata que o problema é generalizado e poucos colegas conseguiram finalizar o curso. 

“Na minha escola, até o momento, apenas dois professoras conseguiram concluir. Os demais enfrentam muitas dificuldades. Alguns não conseguem fazer login nem atualizar o cadastro. A maioria sequer consegue se inscrever no curso”.

Além da dificuldade de acesso, a plataforma utilizada é pouco intuitiva e sofre com falhas evidentes de programação.

Ao abrir o site pela primeira vez, é preciso aguardar por minutos até que as opções de clique sejam carregadas e disponibilizadas ao usuário.

Quem não possui conhecimentos avançados de informática, além de muita paciência, mal chega à primeira tela.

Ainda lidando com as consequências do irracional corte de ponto da greve – que subsiste mesmo com a recuperação dos dias letivos -, os trabalhadores(as) têm medo de perder o salário se não concluírem as atividades.

A professora e vice-diretora do colégio Cândido José de Godói, de Porto Alegre, Lilian Balbinot, demonstra preocupação com os colegas. 

“Eu, que tenho facilidade com o computador, levei um tempo para conseguir. Para quem não tem conhecimento maior vai ser ainda mais difícil. Estou ajudando alguns colegas, mas muitos estão com receio de não ter presença garantida no curso”, conta.

Lilian conseguiu finalizar a formação após muita insistência, mas ainda assim segue com incertezas. 

“Fiquei três dias tentando salvar as respostas. Enviei sete e-mails para o NTE e sempre diziam que o sistema estava instável. Ontem, depois de ficar até uma hora da manhã, consegui terminar. E agora para que serve esse certificado? Ninguém sabe”, desabafa.

Propaganda enganosa


Nesta semana, duas postagens sobre o tema no Facebook da Seduc propagandeavam o suposto sucesso da formação continuada.

Até a finalização desta matéria, as publicações já somavam mais de 130 comentários, a maioria demonstrando indignação e frustração com o sistema.

Confira alguns dos comentários abaixo:

Mesmo com os diversos relatos, a única mensagem disponibilizada no site da Secretaria orienta apenas que os problemas sejam encaminhados à Central de Atendimento da mantenedora.

Lívia Farias, professora na escola Eng. Ildo Meneghetti, de Porto Alegre, abriu um chamado na Central mas segue com os mesmos problemas. 

“Enviei e-mail para o técnico e ele ficou de ajudar, mas não está adiantando muito. Mesmo com as senhas de acesso que ele envia eu não consigo entrar. Agora mesmo ele enviou outra e continua não funcionando”, diz. 

A maioria dos relatos denota uma categoria que, além de abalada em meio à pandemia e pelas condições de miserabilidade impostas pelo Estado, ainda precisa encontrar forças para finalizar um curso que sequer funciona.

“Parece que o governo quer nos castigar, nos obrigando a fazer qualquer coisa durante a quarentena e sem oferecer o suporte adequado à demanda que eles mesmos criam”, desabafa a diretora Bruna, da Onofre Pires.

Muita paciência

Pouquíssimos dos educadores(as) consultados pela reportagem chegaram até a fase final do curso. O professor da escola Onofre Pires, Gustavo Oscar Vieira , alcançou o feito após três dias de muitas tentativas.

“Só consegui me inscrever com o auxílio de colegas, pois não recebemos nenhuma instrução de como iria funcionar. Cada um que conseguia acessar ia ajudando os outros. É um desgaste desnecessário, que está deixando todo mundo preocupado em perder o prazo de inscrição”, diz.

O professor Flávio Figueiró, do Neeja de Palmeira das Missões, acordou de madrugada para conseguir finalizar o curso. 

“Quando consegui realizar a inscrição, fui fazer o curso começando as atividades às oito da noite, mas como o sistema caia a todo instante, tive que parar. Acordei às cinco da manhã e só assim consegui terminar”, relata.

Mas, na hora de emitir o certificado, outro problema. “O sistema não salvou as informações. Alguns colegas tiveram que refazer todas as atividades”.

O CPERS orienta os educadores(as) que não estão conseguindo acesso à plataforma ou que não tem condições de realizar o curso que registrem as dificuldades e comuniquem suas direções escolares e as CREs.

O atendimento das CREs está sendo realizado online, e os e-mails estão disponíveis neste link.

Também é importante manter a pressão por soluções nas redes sociais da Secretaria da Educação e do Governo do Estado.

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