562 alunos, 24 turmas, dois filhos, salário cortado; a realidade do educador gaúcho na pandemia


Enquanto Eduardo Leite (PSDB) acusa a categoria de não se importar com a educação, a vida continua do lado de fora do luxuoso Palácio Piratini.

“Divido minha mesa de jantar com trabalhos dos alunos, livros, telefone, cadernos, celular e um computador que o uso excessivo estragou. Se não fossem os descontos da greve, poderia ter comprado um computador melhor, um celular também. Tudo que consegui foi acumular dívidas”

Homem, negro e professor de filosofia e sociologia da EEEM Evaristo de Antoni, de Caxias do Sul, Fernando da Silva Lopes perdeu as contas de quantas vezes trabalhou madrugada adentro durante a pandemia.

Ao todo, o educador atende 24 turmas nos três anos do Ensino Médio e de Educação de Jovens e Adulto, somando 562 alunos(as).

Quando se pensa na carga horária de um professor, é um equívoco lembrar apenas das horas letivas.

A interminável rotina inclui preparar aulas para cada ano e disciplina, conteúdos diversificados para alunos especiais, gravar vídeos, preencher planilhas e avaliações, responder estudantes e pais, publicar aulas no Classroom, realizar formações, fechar notas e lançar faltas.

Pesquisa desenvolvida pelo CPERS e consolidada pelo Dieese identificou que 98% dos professores(as) estão trabalhando mais do que prevê o contrato de trabalho durante a pandemia.

No caso de Fernando, ainda é necessário conciliar o trabalho com a segunda graduação – em Geografia -, cuidar da casa e, junto da esposa, auxiliar os filhos nas aulas online: a menina com seis anos, em fase alfabetização, e o rapaz com 12, no 7º ano.

“É um desafio diário, mas estamos perseverando. É preciso lembrar que existe uma logística em nossas casas, como preparar a alimentação, cuidar dos espaços, manter a nossa saúde mental e dos nossos filhos, entre tantas outras coisas”, conta.

Falta de valorização impede dedicação almejada

Apesar da carga extenuante de trabalho, o educador não está satisfeito com o trabalho final entregue para os estudantes.

“É angustiante e causa uma sensação de impotência. Em vez de cuidar da burocracia, gostaria de poder estudar mais e preparar de forma mais aprofundada as aulas, oferecer um atendimento mais exclusivo e individualizado às necessidades dos estudantes. Mais fazer pedagógico, menos preenchimento de papéis”, avalia Fernando.

Além da exclusão inerente ao trabalho digital, o professor precisa lidar com a exclusão ativa realizada pelo governo Leite (PSDB). Na sua escola, a Seduc proibiu as inscrições para a modalidade de EJA.

“É um ato extremamente radical e desonesto, principalmente em um contexto de pandemia. Quando o governo corta esse acesso ao EJA, retira sonhos, mata possibilidades. É um ataque frontal à sociedade. Outro ataque, é sobre a questão das faltas, pois essas impactam diretamente na vida dos estudantes, pois quando ele olhar no aplicativo o número de faltas referente ao primeiro período, dificilmente esse aluno retornará para dar sequência aos estudos. São situações delicadas que se o governo tivesse uma postura diferente, seria mais fácil superarmos esse momento tão difícil da nossa história”, conclui.

Em meio à pandemia, o governo Eduardo Leite (PSDB) proibiu a abertura de novas turmas nas modalidades da EJA, NEEJA e cursos técnicos em escolas estaduais.

São permitidas somente transferências entre turmas e escolas, ou a continuidade dos alunos(as) já existentes.

O CPERS apurou, em consulta a 43 escolas, que ao menos 5,3 mil jovens e adultos terão negado o direito constitucional à educação. Esta é a demanda por novas inscrições relatada pelas instituições pesquisadas.

> > Apoie o abaixo-assinado em defesa do direito à Educação

Desorganização da Seduc custa caro à saúde dos trabalhadores(as)

Para a coordenadora do Departamento de Saúde do Trabalhador, Vera Lessês os ataques de Eduardo Leite coordenados com a pandemia elevam a pressão psicológica e emocional a níveis extremos.

Muitas vezes, as consequências são somatizadas em ataques de pânico, hipertensão e outras enfermidades.

“Não bastassem os salários congelados há praticamente seis anos, parcelados e atrasados, tivemos o desmonte do nosso Plano de Carreira com a retirada de direitos garantidos, apesar da grande mobilização dos educadores. E agora este massacre em plena pandemia”, analisa.

Vera também critica a desorganização da mantenedora, que inúmeras vezes leva ao retrabalho com orientações confusas ou francamente contraditórias.

“É uma burocracia que poderia ser evitada com o mínimo de planejamento. Mas que hoje gera crises de esgotamento, estresse e  adoecimento físico e psíquico. É ainda mais cruel pois, sem receber um salário justo, precisamos investir em medicamentos e terapias para dar continuidade à nossa missão com responsabilidade e respeito aos estudantes”, finaliza Vera.

Orientações do CPERS para evitar a sobrecarga

▶️ Nenhum educador(a) deve aceitar trabalhar para além das horas contratadas. Vídeos de formação (letramento digital) são opcionais e devem ser assistidos dentro da carga horária normal. O atendimento de pais e alunos(as) também deve observar este cuidado;

▶️ Caso o educador(a) não tenha condições de realizar aulas síncronas, ou qualquer outra modalidade de aulas remotas – seja por falta de recursos, conexão, equipamentos adequados ou outra situação – deve registrar os motivos e comunicar a direção escolar e a mantenedora;

▶️ Ninguém pode ser obrigado a fazer um trabalho cuja realização depende de condições que a mantenedora não fornece. De acordo com a Secretaria da Educação, a efetividade não será prejudicada desde que o educador(a) justifique suas dificuldades com o trabalho remoto.

Notícias relacionadas