Para pesquisador e professor da UFABC, reforma do Ensino Médio é abismo que aprofunda a desigualdade


A reforma do Ensino Médio é um dos piores retrocessos da história do Brasil que pode produzir o aumento da desigualdade entre estudantes mais ricos e mais pobres. O grande prejuízo é aprofundar o abismo que existe entre as escolas. A opinião é de Fernando Cássio, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), em entrevista, nesta segunda-feira (27), ao portal da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE).

“A reforma, que promete fazer uma revolução, na prática significa que você vai diminuir o conteúdo da escola dos alunos mais pobres, então a implantação da reforma é um atraso”, diz Cássio.

O pesquisador de políticas educacionais e professor da UFABC rebate ponto a ponto das informações do Ministério da Educação sobre o chamado Novo Ensino Médio (NEM), que prevê uma nova organização curricular “mais flexível”, oferece “oferta de diferentes possibilidades de escolhas aos estudantes” e “aproxima as escolas à realidade dos estudantes de hoje, considerando as novas demandas e complexidades do mundo do trabalho e da vida em sociedade”.

“A reforma do Ensino Médio é uma política de reforma de currículo. Ela promete fazer uma série de promessas para os estudantes do país, como acessibilidade curricular, qualificação profissional, expansão de jornada escolas, etc. Porém, ela não está acompanhada por uma série de políticas que criariam as condições materiais para realizar essas promessas”, afirma o professor, que ressalta: “Não inclui, por exemplo, a valorização profissional, carreira, condições do trabalho do professor, infraestrutura escolar, a permanência de estudantes mais pobres, então na prática essa reforma pode produzir o aumento da desigualdade entre estudantes mais ricos e mais pobres”.

Futuro dos trabalhadores

A partir de janeiro deste ano, e gradualmente até 2024, começou a ser aplicada em todo o país a reforma do Ensino Médio, aprovada pelo então presidente, Michel Temer (MDB), que aprovou mais duas reformas que que jogaram o país na informalidade e no desemprego: a reforma da Previdência e Trabalhista.

“Temos que ter cuidado porque a gente fala muito da reforma da Previdência e da reforma Trabalhista e deixamos de lado a reforma do Ensino Médio, e ela tem tudo a ver com isso. Porque é a reforma do Ensino Médio que é responsável por formar futuros trabalhadores”, afirma Cássio.

Na prática, a reforma do Ensino Médio traz aos alunos formações precárias com cursos de curta duração e aulas por vídeo conferência. No Paraná, por exemplo, professores contratados de universidade levam os alunos para assistir televisão. Já no estado de São Paulo houve contratação de professores de escolas técnicas privadas para dar curso apostilado.

Para Cássio, aula sem laboratório, sem sala de aula, sem carga horária, é, portanto, uma qualificação profissional sem qualidade. “Os alunos estão trocando aula de física, matemática, geografia, ciências e sociologia por esses itinerários formativos de baixíssima qualidade”.

A Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE) , em carta aberta, se posicionou pela revogação da Reforma do Ensino Médio (Lei 13.415/2017)”. O documento foi publicado no dia 8 de junho e apresenta 10 razões que evidenciam o caráter antidemocrático desta Reforma, que é um projeto de educação avesso à equidade e ao combate das desigualdades sociais e educacionais.

A entidade também vai promover a Jornada de Formação e Debate sobre o “Novo Ensino Médio” que será realizada no próximo dia 28 de junho (terça-feira) às 19h, online pela plataforma Zoom, direcionado para os secretários de assuntos educacionais e interessados/as pelo tema, que pertençam aos sindicatos filiados à CNTE.

Fonte: CNTE

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