Para ler o mundo em tempos de exceção: começa o Seminário de Educação Paulo Freire


Começou nesta terça-feira (1º) o Seminário de Educação Paulo Freire: um Olhar Freireano Através da Educação e da Política, um ciclo de cinco palestras organizado pelo Departamento de Educação do CPERS às vésperas do centenário do destacado pensador brasileiro, que completa 99 anos no dia 19 de setembro.

“Este é um ato de afirmação da defesa da educação pública, democrática e de qualidade social, e uma oportunidade para refletir sobre o ensino que queremos e o legado que o patrono da educação nos deixou”, saudou Rosane Zan, diretora do Departamento de Educação e mediadora das mesas, que ocorrem todas as terças até o dia 29 de setembro, sempre às 17h, com transmissão no Youtube do CPERS.

Além do palestrante convidado para ministrar a aula inaugural, Thiago Ingrassia, pós-doutor em educação e professor da UFFS, a abertura contou com a presidente do CPERS, Helenir Aguiar Schürer, do presidente da CNTE, Heleno Araújo, da ex-deputada estadual e autora Marisa Formolo, e de Mariana Vargas Ferreira, ex-aluna e professora do Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos do RS (MOVA-RS), que iniciou os trabalhos recitando o poema “A escola é”, de Freire:

Escola é …
o lugar que se faz amigos.
Não se trata só de prédios, salas, quadros,
Programas, horários, conceitos…
Escola é sobretudo, gente
Gente que trabalha, que estuda
Que alegra, se conhece, se estima.
O Diretor é gente,
O coordenador é gente,
O professor é gente,
O aluno é gente,
Cada funcionário é gente.
E a escola será cada vez melhor
Na medida em que cada um se comporte
Como colega, amigo, irmão.
Nada de “ilha cercada de gente por todos os lados”
Nada de conviver com as pessoas e depois,
Descobrir que não tem amizade a ninguém.
Nada de ser como tijolo que forma a parede,
Indiferente, frio, só.
Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar,
É também criar laços de amizade,
É criar ambiente de camaradagem,
É conviver, é se “amarrar nela”!
Ora é lógico…
Numa escola assim vai ser fácil!
Estudar, trabalhar, crescer,
Fazer amigos, educar-se, ser feliz.
É por aqui que podemos começar a melhorar o mundo.

Helenir resumiu o espírito do evento: “em um mundo onde cada vez mais parece que o ódio prevalece, nada como uma boa dose de Paulo Freire para enxergamos que é possível construir um mundo mais justo, mais fraterno e menos desigual.”

“A síntese do pensamento de Freire é de que a educação contribua para a transformação da sociedade. Se sairmos daqui com a percepção de fortalecer os laços de amorosidade e de um projeto coletivo construído pelo diálogo, terá valido a pena”, disse Candida Rossetto, secretária-geral do CPERS.

Edson Garcia, 2º vice-presidente, ressaltou a importância de estudar e compreender o fazer pedagógico para “fortalecer o nosso próprio parâmetro e pensar de forma crítica como e para que educamos.”

Já Cássio Ritter, também da direção central, lembrou da sua experiência em sala de aula. “Quando comecei a lecionar, usei o método freireano e tivemos resultados fantásticos. É uma pedagogia voltada a enriquecer estudante e educador em iguais medidas”, observou.

A necessidade de trazer o olhar de Paulo Freire para pensar, também, as estratégias de luta e de mobilização da categoria foi a tônica da fala do presidente da CNTE.

“Temos que ir ao encontro do que Paulo Freire diz para lembrarmos dos nossos direitos como cidadãos com a mobilização, com as nossas bandeiras, com a nossa alegria e a vontade de mudar o nosso país e os rumos da nossa vida”, pontuou Heleno Araújo, que enxerga na prática solidária e empática com o outro – uma das lições de Freire – uma possibilidade de construir laços de afeto e consciência política.

“Temos que atuar como um comunicador social e popular. Vamos fazer esse trabalho em casa, com os companheiros que votaram em Bolsonaro e Leite, que não acreditaram no que denunciamos ainda em 2018, que agora com os fatos concretizados tenhamos capacidade ler os seus anseios, ensinar e aprender”, concluiu.

A autora Marisa Formolo, que narra seu encontro em 1984 com Paulo Freire na cidade de Caxias do Sul na obra o Acendedor de Esperanças, também frisou a importância de resgatar os ensinamentos do educador para o norte da luta.  “Viemos de uma geração que  se discutia muito a educação popular. O método ver, julgar e agir fazia parte do nosso processo educativo dentro e fora da escola. Essa formação de militância comprometida com a mudança social foi muito forte”, avaliou.

“Quando o presidente da República quer tirar Paulo Freire como patrono da educação, não nos deixa apenas envergonhados, mas também nos dá consciência de que precisamos ser resistentes”, completou Marisa.

Nada mais ideológico do que negar a ideologia

Na confluência entre a política, a sociologia e a pedagogia, Thiago Ingrassia resgatou o protagonismo de Freire para compreender e incidir sobre o que chamou de “exceção dentro da exceção”, referindo-se aos tempos turbulentos de pandemia e ao “antigo normal”.

“A atual crise não gera condições sociais terríveis, mas aprofunda. Não foi a pandemia que gerou um governo de extrema direita, a desigualdade, o desemprego, a falta de investimentos em políticas públicas. Este já era um mundo marcado por exceções. Vivemos a exceção dentro da excepcionalidade”, analisou.

Para Ingrassia, não surpreende o ataque coordenado à obra de Paulo de Freire. “É uma polêmica criada por uma ideologia que vive de eleger inimigos. Por isso transformaram Freire em um símbolo do campo político a ser combatido.”

Neste sentido, o pesquisador coloca à mesa a dimensão política da teoria freireana para destacar que não há neutralidade possível.

“Temos que nos perguntar: as decisões que são tomadas, são a favor de quê e a favor de quem, e contra quê ou contra quem. Isso coloca a absoluta impossibilidade de sermos neutros. O discurso apolítico, apartidário, que procura deslegitimar canais de mediação como movimentos populares e sindicatos, são discursos que em nome de uma mentira, assumem uma posição política. Nada mais ideológico que negar a ideologia. Nada mais político do que negar a política.”

A explanação se voltou ao tema da educação bancária e os perigos da sua reprodução no EAD, mote da palestra.

Ingrassia diferencia ensino remoto emergencial de educação a distância, lembrando que o EAD não é, isoladamente, um problema em si.

“É preciso enxergar o EAD como um recurso, como um meio, e não como fim. O problema é quando o EAD se torna um fim para vender diplomas, gerar lucro e explorar educadores. Em vez de atuar como facilitadora, gera uma cadeia de outros problemas”, explicou.

O pesquisador teceu duras críticas aos processos virtuais de aprendizagem implantados às pressas na pandemia. “O Ensino Remoto emergencial é muito perverso. Porque a realidade da educação pública vai ao encontro das contradições sociais. E este é um país que não tem disponibilização tecnológica que permita a substituição de aulas presenciais por remotas”, disse.

Ingrassia circunscreve a preocupação à prática solidária de Freire. “É preciso ter capacidade de alteridade. Preocupação com o outro. Criar mecanismos de oferta remota. Mas não podemos penalizar quem não tem acesso. A Internet é cara e não é boa. Um Estado que não paga o que deve, cobra que o educador se reinvente pra poder chegar na imprensa e dizer que está tudo bem. Não está. Já não estava antes. Não dá pra fazer esse transplante.”

E finalizou:

“Para Paulo Freire, educar é conscientizar. Conscientizar está inscrito como prática da liberdade. Quanto mais formos capazes de exercer uma reflexão crítica sobre a realidade, mais conscientes estaremos. Precisamos da pedagogia da pergunta como um movimento dinâmico para que as pessoas possam compreender o mundo ao seu redor.”

O módulo da próxima semana contará a participação de Fátima Silva, secretária-geral da CNTE e vice-presidente da Internacional da Educação da América Latina (IEAL), e José Batista Neto professor titular do Centro de Educação (UFPE) e membro da cátedra Paulo Freire. Em debate, Paulo Freire o uso da educação emancipatória/transformadora contra os retrocessos das políticas educacionais.

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