Novo currículo do Ensino Médio gaúcho é retrocesso civilizatório


Imposta aos atropelos na rede pública estadual, a reforma do Ensino Médio traz mudanças ainda desconhecidas pelo grande público; mas – para educadores(as) e alunos(as) – apresenta uma série de preocupações.

Formação inadequada aos professores(as), esvaziamento do conteúdo, diminuição da carga horária de disciplinas fundamentais para a realização de processos seletivos e falta de investimento na infraestrutura das escolas são alguns dos problemas relatados.

A verdade por trás do alarde da Secretaria de Educação (Seduc) é que se trata de uma reforma inadequada, apartada do contexto social e da realidade das instituições de ensino estaduais. 

Em 2019, o novo Ensino Médio foi implantado em 300 escolas-piloto do Rio Grande do Sul – como laboratório de experimentação. Mas, neste ano, foi aplicado em todas as escolas de Ensino Médio.

Uma das angústias é referente à redução da carga horária do currículo obrigatório, que prejudicou o desempenho de estudantes em processos seletivos como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

“Na minha turma, alunos que estudavam desde o Ensino Fundamental pediram transferência para outra escola que ainda não implantou esse novo Ensino Médio. O principal motivo foi pela retirada de algumas disciplinas que  são consideradas importantes para quem visa fazer um vestibular como o Enem”, explica a aluna do 3° ano do Ensino Médio do CE São Patrício, escola-piloto de Itaqui, Larissa Serres Espinosa.

Outro problema apontado são os itinerários formativos. As escolas têm autonomia para estabelecer quais serão ofertados e como eles serão estruturados. Artes, Educação Física, Língua Inglesa e Língua Portuguesa, por exemplo, estão englobadas nos itinerários de Linguagens e suas Tecnologias, assim como Biologia, Física e Química formam as Ciências da Natureza e suas Tecnologias, entre outros.

Paola Costa, professora da escola-piloto de Porto Alegre, EEEB Presidente Roosevelt, relata que uma das dificuldades é que muitas instituições não poderão atender ao itinerário escolhido, já que não possuem estrutura exigida para tal, muito menos professores(as) suficientes.

“Não temos laboratório de informática, acesso à internet suficiente de alta velocidade em todas as salas de aula, quadra coberta para fazer um trabalho com os alunos, teatro na escola para fazer um trabalho bom de expressão cultural, muito menos laboratório de ciências completo para trabalhar questões relacionadas às Ciências da Natureza ”, afirmou a professora Paola.

“O ensino-aprendizagem fica deficitário, independente do itinerário que o aluno escolher de aprofundamento, o curso que ele escolher, não vão ser as habilidades e competências que vão ser trabalhadas ao longo dos três anos; vão ter objetos de conhecimento que vão ser trabalhados e habilidades que não vão ser desenvolvidas”, completou.

Em outra escola-piloto, a diretora Eliane Brum, do IE Rui Barbosa, de São Luiz Gonzaga, aponta ainda a formação inadequada aos professores(as) feita de maneira superficial pela Seduc.

“A redução da carga horária das nossas disciplinas que compõem a BNCC e o aumento progressivo das que integram os itinerários formativos, que são disciplinas novas, diferentes, têm gerado dificuldades. Os nossos professores não têm uma formação adequada para trabalhá-las. Eles se esforçam, mas a formação proposta pela Seduc é concomitante com as aulas em sala de aula, o que vem trazendo angústia ao educador”, explica.

O CPERS defende o respeito ao currículo debatido no chão da escola, a gestão democrática e a autonomia das escolas para desenvolverem seus projetos político-pedagógicos. É urgente envolver toda a comunidade escolar, incluindo pais e alunos- (as), na defesa de uma educação pública, gratuita e de qualidade, com gestão democrática e comprometida com a formação integral do cidadão. 

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