Ideb 2025: resultados em alta, valorização profissional em baixa


A divulgação dos resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2025 trouxe uma notícia positiva para a educação pública gaúcha: a rede estadual registrou avanço em seus indicadores de desempenho. Calculado a partir das taxas de aprovação e do desempenho das(os) estudantes nas avaliações do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), o Ideb é um importante instrumento para acompanhar a evolução da educação brasileira. No entanto, seus resultados precisam ser analisados com cautela e em conjunto com outros fatores que influenciam a qualidade do ensino.

Embora o avanço dos indicadores mereça ser reconhecido, ele não pode ser tratado como prova de que todos os problemas da educação pública foram superados. Tampouco pode servir para ocultar os desafios enfrentados diariamente por quem mantém as escolas funcionando. Enquanto o governador Eduardo Leite (PSD), o vice-governador Gabriel Souza (MDB) e a secretária da Educação, Raquel Teixeira, afirmam que o Rio Grande do Sul está “colhendo os frutos de uma educação que voltou a ser prioridade”, a realidade vivida pelas(os) profissionais da educação revela um cenário marcado pela desvalorização das carreiras, falta de concursos públicos, sobrecarga de trabalho, terceirização e infraestrutura insuficiente nas escolas estaduais.

>> Clique aqui para conferir o estudo completo do DIEESE.

É justamente esse o alerta feito pelo estudo elaborado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), que analisou os resultados do Ideb 2025. O documento reconhece a evolução dos indicadores da rede estadual, mas ressalta que o Ideb é apenas um instrumento de monitoramento e, isoladamente, não mede a qualidade da educação. O índice não considera aspectos fundamentais, como as condições de trabalho das(os) profissionais, a valorização das carreiras, a infraestrutura das escolas, a inclusão, a permanência das(os) estudantes e a redução das desigualdades educacionais.

Por isso, embora reconheça o avanço alcançado pela rede estadual, o estudo faz um alerta contundente: é preciso refletir sobre as condições em que esse resultado foi produzido e questionar qual foi o custo humano desse desempenho. Nos últimos anos, as(os) profissionais da educação convivem com o aumento da sobrecarga de trabalho, da intensificação das tarefas burocráticas, da insuficiência de pessoal e do crescimento dos afastamentos por adoecimento. Ignorar esse contexto significa reduzir a educação a um único indicador estatístico.

Os dados do Ideb também desmontam outro discurso defendido pelo governo Leite (PSD): o de que a iniciativa privada seria indispensável para elevar a qualidade da educação pública. A melhora do Ideb ocorreu apesar de qualquer Parceria Público-Privada (PPP) e foi construída dentro das escolas estaduais, graças ao trabalho cotidiano das(os) educadoras(es), equipes diretivas e funcionárias(os) de escola, mesmo diante da falta de investimentos, da precarização das relações de trabalho e da crescente pressão por resultados. A evolução do indicador deve ser reconhecida como resultado do trabalho desenvolvido nas escolas públicas e não pode ser utilizada para justificar políticas que ampliem a privatização da educação.

Análise da evolução do Ensino Fundamental – Anos Iniciais (1º ao 5º ano) na rede estadual do Rio Grande do Sul entre os ciclos de 2023 e 2025

Os resultados do Ensino Fundamental também desconstroem um dos principais argumentos utilizados pelo governo Leite (PSD) para defender a municipalização da educação. Nos anos iniciais, a rede estadual alcançou 6,4 no Ideb, desempenho superior ao da rede pública gaúcha. Nos anos finais, a situação se repete: a rede estadual atingiu 5,4, acima da média da rede pública, que ficou em 5,2. Os números demonstram que o fortalecimento da escola estadual produz resultados e colocam em xeque a narrativa de que a transferência de matrículas e responsabilidades para os municípios seria a solução para melhorar a qualidade do ensino.

Análise da evolução do Ensino Médio na rede estadual do Rio Grande do Sul entre os ciclos de 2023 e 2025

No Ensino Médio, o Ideb da rede estadual passou de 3,9 para 4,7, a maior evolução entre todas as etapas. Ainda assim, o próprio estudo alerta que esse crescimento foi influenciado, sobretudo, pelo aumento das taxas de aprovação. O dado reforça que o verdadeiro desafio continua sendo garantir que a melhora dos indicadores represente mais aprendizagem, melhores condições de ensino e uma educação pública de qualidade para todas(os).

Para o CPERS, a melhora dos indicadores deve ser comemorada, acima de tudo, pelas(os) profissionais que mantêm a escola pública funcionando todos os dias, muitas vezes sacrificando a própria saúde diante da sobrecarga e da falta de condições adequadas de trabalho. No entanto, nenhum índice será suficiente se não vier acompanhado da valorização das carreiras, de concursos públicos, de financiamento adequado, de escolas bem estruturadas e de políticas que garantam aprendizagem efetiva.

O que a educação gaúcha precisa não é de propaganda oficial, mas de investimentos que se traduzam em melhores condições para quem ensina, para quem trabalha nas escolas e para que cada estudante tenha, de fato, uma formação capaz de enfrentar os desafios do presente e construir o futuro. Afinal, como ressalta o estudo do DIEESE, o Ideb, por si só, não é capaz de medir a qualidade da educação nem o sucesso de uma política pública!

Notícias relacionadas

A Lei nº 11.340, sancionada em 7 de agosto de …

06/08/2026

Secretárias(os), monitoras(es), merendeiras(os), bibliotecárias(os), trabalhadoras(es) da limpeza e dos serviços …

05/08/2026

Defender a educação pública é defender um projeto de país …

03/08/2026

Dirigentes sindicais de toda a América Latina reuniram-se em Brasília, …