Governo Leite tenta remover estudantes e fechar escola do campo modelo em Capão do Cipó


“A nossa escola tem laboratório de informática, laboratório de ciências, nós equipamos todas as salas de aulas com ar-condicionado. Temos uma vasta horta, biblioteca com mais de 2 mil livros, banheiros adaptados, um ginásio enorme. Na outra escola não tem nada. Por que querem tirar os alunos dessa estrutura para colocar numa escola sem nada?”

O desabafo é de Marilene Beatriz Pinheiro Botega, diretora da EEEM Macedo Beltrão de Nascimento, localizada no interior de Capão do Cipó. Ela foi surpreendida com a notícia de que parte dos estudantes do Ensino Médio serão transferidos para uma escola municipal já neste ano.

O comunicado não partiu da Coordenadoria ou da Seduc. Marilene soube da informação por meio de uma entrevista do prefeito na rádio da cidade.


A Beltrão tem quase 70 anos de história e há duas décadas é a única que oferta Ensino Médio no Carovi, distrito de Capão do Cipó, no Noroeste do estado. 

O governo argumenta que a mudança é para melhorar as condições de ensino e combater a evasão. Mas faltou combinar com a comunidade escolar. Estudantes e familiares não foram consultados e não se sabe quais seriam os ganhos pedagógicos da transferência.

De acordo com a diretora, a escola do Município sequer possui alvará para funcionamento.

Descaso e ameaças

Alunos(as), pais e educadores(as) da Macedo Beltrão se uniram para impedir a medida. Mas a Seduc ignorou os apelos. A audiência com a Secretaria só veio após a pressão da comunidade junto a vereadores(as) e ao vice-prefeito.

De saída, a  secretária-adjunta Ivana Flores se recusou a receber um abaixo-assinado feito pela comunidade. Após insistência da diretora, o documento foi entregue mas a secretária informou que uma comissão já foi instaurada para tratar da transição.

“Ela disse que já estava decidido, pronto e acabado e que eu tenho que acatar as ordens. Eu tentei justificar que não achava certo, porque veio de surpresa e até em função da estrutura da nossa escola, mas ela disse que não, que isso não dependia de mim, que ela fez uma análise dos dados e que poucos alunos estão saindo do nosso Ensino Médio”, expõe Marilene. 

Ao enxergar apenas números, a Secretaria desconsidera as particularidades da realidade local. “Em nenhum momento ela considerou que a nossa demanda é de uma escola do campo, que recebemos alunos de todas as localidades. Que ali são granjeiros, são pessoas que trabalham em fazenda, outros que vem oriundos de mais longe, de assentamentos. Nós temos ex-alunos que hoje são enfermeiros, advogados, dentistas, como desconsiderar isso?”, completa a diretora.  

O diretor do 29º núcleo do CPERS (Santiago), Leandro Wesz Parise, presente na reunião, relata espanto com a decisão. “A escola possui uma estrutura impecável e a unidade para o qual querem transferir não tem nenhuma condição para receber os alunos. Fizemos reuniões com a comunidade e falamos com vereadores para que possam interferir nessa resolução do governo.”

O diretor ainda informa que até o momento o governo  não enviou nada para a escola e nenhum membro da comissão. “Na quinta tivemos audiência pública da comissão de educação da Alergs que encaminhará questionamentos à Seduc e ao conselho estadual de educação” salientou Leandro. 

Gastos duplicados

Além da justificativa infundada de que a mudança seria para melhorar o ensino, outro ponto causa estranhamento. 

Na reunião com a secretária-adjunta, os presentes questionaram sobre o ginásio, estrutura presente na escola e que a municipal não oferece. 

Ivana respondeu que não havia motivo para preocupação porque o governo daria o transporte e os alunos terão as aulas de educação física na Macedo Beltrão. Segundo ela, basta organizar os horários e realizar as atividades em horário inverso.

A proposta soa absurda. Por que os alunos se locomoverão 22 km para ter aulas de educação física, fora do horário, gerando um gasto extra para o Estado, se eles podem continuar na mesma escola? 

Para a diretora Marilene a resposta é simples: “Eles não conhecem a realidade da nossa escola ou da nossa comunidade e se conhecem não estão preocupados. Querem economia numa coisa e duplicam  os gastos com outra. Essa escola do município não tem nem o mobiliário, o Estado vai ter que fornecer tudo”.

Preocupação com o futuro

“Se dividirem os nossos alunos, consequentemente vão terminar com a nossa escola”. 

Esse é o apelo da diretora em nome de toda a comunidade da Macedo Beltrão. Como a escola funciona em três turnos, a diretora explica que enturmações e reduções de carga horária dos professores(as) serão necessárias. 

“Nós vamos ficar com turmas muito pequenas, vai ter que ser enturmado primeiro com segundo, segundo com terceiro ou até mesmo as três junto. E, consequentemente, os professores terão a carga reduzida e terão que se movimentar para outra escola para cumprir tudo”.

Carla Kuntz, mãe de aluno da escola, fez um apelo online pedindo que o governo reveja a decisão. 

Elizandra Ceolin, mãe de ex-aluno, está preocupada com o futuro da instituição. “Essa proposta irá prejudicar muito a nossa comunidade. Querem deixar metade dos alunos na Carovi e metade em Capão do Cipó. Vão acabar agrupando as turmas. Estamos preocupados. A escola é impecável e tem excelentes educadores. Meu filho estudou lá e hoje cursa uma faculdade federal”, observou.

“Eles dizem que a mudança não vai fechar a escola, mas no fim do ano, quando a quantidade de alunos não for a ideal para eles, vão nos fechar sim. Existe uma pesquisa onde dizem que se fecha uma escola, termina a comunidade. Termina porque vem a depressão, vem a angústia, porque termina a sociabilidade entre as pessoas”, ressalta Marilene.

Mobilizar a comunidade é fundamental

O CPERS orienta as comunidades de escolas ameaçadas de municipalização a mobilizarem-se para impedir a continuidade do processo.

Audiências públicas, reuniões com pais e estudantes para a organizar o apoio da sociedade, abaixo-assinados e pressão nos deputados, vereadores, secretários de educação e prefeitos são alguns dos movimentos recomendados.

O CPERS solicita que casos semelhantes de desmonte sejam comunicados pelo e-mail secgeral@cpers.org.br

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