Estudantes de escola de Caxias do Sul são premiados em projeto com temática antirracista


“Posso dizer que este é um dos projetos da minha vida. Possibilitar aos estudantes essa experiência imersiva no mundo das pessoas negras é um movimento inicial para que possamos acabar com o racismo. Isso é tão forte, que trabalhos assim deveriam fazer parte do currículo de maneira efetiva”, destaca o professor de filosofia da EEEM Evaristo de Antoni, de Caxias do Sul, Fernando da Silva Lopes.

Estudantes do 2º e 3º ano do Ensino Médio da instituição apresentaram-se no 1º Festival de Curtas-Metragens EDA 2022, no auditório da UniFtec, na última quarta (23) e quinta-feira (24). O projeto antirracista, em alusão ao mês da Consciência Negra, debateu elementos contra o preconceito a corpos negros, que os estudantes observam na sociedade diariamente.

Na sexta-feira (25), os alunos(as) foram premiados pela escola com o troféu “Carolina Maria de Jesus” para o 1º lugar (Eu sou Regina), 2º lugar (Meu nome é…) e 3º lugar (Verdadeiros Protagonistas) e uma estatueta para as categorias Melhor Ator, Melhor Atriz, Ator e Atriz Coadjuvante, Melhor Figurino, Melhor Diretor, Melhor Edição e Melhor Roteiro. Todos os estudantes que participaram receberam medalhas.

Durante quatro meses, os alunos(as) elaboraram o roteiro, a parte estrutural e a gravação nas disciplinas de Português, Filosofia, Sociologia, História, Geografia, Mundo do Trabalho, Tecnologia e Cultura Digital, além de abranger as áreas da Literatura, Ciências da Natureza e Matemática.

Segundo o professor Fernando, o objetivo principal do trabalho é construir na escola uma formação antirracista, possibilitando que os estudantes possam se reconhecer enquanto agentes de transformação de combate ao racismo.

“A ideia surgiu a partir dos sintomas que percebemos diariamente. Enquanto professor negro, consigo identificar, nos discursos e nas brincadeiras entre os estudantes, as narrativas muitas vezes carregadas pelo racismo estrutural. Também da necessidade de trabalhar essas temáticas tão urgentes em nossa sociedade”, explica Fernando.

O professor destaca que, em um primeiro momento, a ideia do trabalho causou pânico entre os alunos(as), mas – à medida em que o tempo foi passando – começaram a entender a necessidade de abordar essa questão.

“Houve conflitos, pois se tratava de um trabalho em equipe, a turma precisava entregar o resultado e para isso precisavam se unir. Já podemos falar que surgiram diversas habilidades e conseguimos trabalhar diversas competências”, afirma Fernando.

Ampliação do projeto já tem data para acontecer

Em 2023, o projeto será ampliado, contemplando também os estudantes do 1º ano do Ensino Médio da escola. “Trabalhamos com os segundos e terceiros anos e no próximo ano vamos ampliar para o primeiro ano do Ensino Médio, contemplando todos os alunos desta etapa”, afirma Fernando.

“Mesmo travando uma luta de trincheiras e com recursos mínimos, conseguimos atingir um objetivo enorme, mostramos nossa escola para a mídia e a potência estudantil que temos aqui”, completou o professor.

Para o estudante, Gabriel Muller, do 2º ano, foi uma honra participar do projeto por abordar esse tema tão importante e ao mesmo tempo poder colocar a veia artística para fora.

“Aprendemos a nos colocar mais no lugar do outro, trabalhar em equipe e vimos que o mundo é muito pior do que imaginamos. Quando fizemos as pesquisas para montarmos o roteiro, nos deparamos com coisas absurdas que não entram nas nossas cabeças que são reais e que infelizmente acontecem no dia a dia”, frisa Gabriel.

O estudante destaca que o projeto tem que continuar e abordar o assunto durante o ano todo – e não somente no mês da Consciência Negra.  “Eu acredito que esse projeto teve uma trilha de ensinamentos e espero que seja repetido várias vezes, pois quando você cria algo do zero, monta todo um esquema sobre o assunto e vê o resultado final, tu entendes muito mais sobre o assunto e percebe que o racismo não deve ser combatido apenas em novembro”, conclui Gabriel.

Para o professor Fernando, o significado do projeto é um aprendizado para a vida toda dos estudantes. “Como cidadão negro, que não caiu de paraquedas nesse lugar, mas teve que ralar muito, é uma alegria imensa, pois sei que daqui a 50 anos os estudantes vão lembrar disso que viveram e irão compartilhar esse aprendizado com as futuras gerações. É como sempre digo, se 0,1 % do que ensinei tiver ficado gravado significativamente em algum ser, então ajudei a formar um ser humano melhor”, finaliza.

Confira os três curtas-metragens premiados no evento: 

1º lugar – Eu sou Regina

2º lugar – Meu nome é…

3º lugar – Verdadeiros Protagonistas

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