Esquecidos pelo governo, funcionários de escola relatam dificuldades diante da falta de reajuste e a sobrecarga de trabalho


Fundamentais para o funcionamento das escolas estaduais, os funcionários(as) da educação, aos olhos cruéis do governo Eduardo Leite (PSDB), parecem ser invisíveis.

Agentes educacionais representam 90% dos piores salários do Rio Grande do Sul e, de acordo com o INPC/IBGE, entre novembro de 2014 e fevereiro de 2023, deduzida a Revisão Geral (6%) concedida em 2022, acumulam perdas inflacionárias que ultrapassam 55%, ou seja, já perderam mais da metade do seu poder de compra.

Pior: cerca de 12 mil servidores(as) precisam de um completivo, já que não recebem nem o Salário Mínimo Regional.

Além do irrisório salário base de R$ 657,97, para 40 horas, que nem de longe supre as necessidades básicas, muitos precisam trabalhar dobrado para suprir a falta de profissionais nas instituições de ensino estaduais. A sobrecarga de trabalho, não raro, gera acúmulo de funções e adoecimento.

Vale ressaltar que funcionários(as) de escola são reconhecidos(as) pela LDB, fazem parte do quadro de servidores(as) da Seduc, possuem Plano de Carreira próprio e merecem ser reconhecidos e respeitados(as) pelo que são: educadores(as).

Mesmo diante de toda essa bruta realidade, o governo do Estado quer excluir servidores(as) de escola do reajuste de 2023 e não abriu vagas para agentes educacionais no edital do concurso para a área da educação. Como sobreviver nestas condições?

A realidade de quem está no chão da escola 

Por conta da função que exerceu durante 24 anos, muitas vezes trabalhando por três ou quatro profissionais, a auxiliar de serviços complementares, Luciara Soares Macedo Damasceno, teve sérios problemas na coluna que a levaram à cirurgia e ao uso de medicação contínua.

“Era como uma escravidão. Era obrigada a limpar de dez a 12 salas de aula em meia hora. Trabalhava 12 horas corridas para dar conta. A minha doença foi derivada do meu trabalho”, desabafa.

Devido ao problema de saúde, Luciara passou a atender no xerox da EEEB Osmar da Rocha Grafulha, o CIEP de Pelotas, e cuidar da portaria.

O salário não cobre todas as despesas mensais e para honrar seus compromissos, a educadora precisa fazer empréstimo e conta com a ajuda do esposo.

“Estou sempre atolada em empréstimos, o valor que recebo por mês não cobre meus gastos. Minha medicação é de uso contínuo e muito cara”.

Não fosse a Reforma da Previdência, Luciara teria se aposentado em agosto de 2022, aos 53 anos de idade e 30 de serviço. Agora, a aposentadoria, tão aguardada e necessária, só virá em 2031.

“Sonhei tanto com isso, aí veio essa reforma desumana. Agora, quando me aposentar, terei 62 anos. Quando soube disso, entrei em depressão. Me sinto profundamente decepcionada”, preocupa-se.

Trabalho aos finais de semana para aumentar a renda

Carla Ramos da Costa, 50 anos, trabalha há mais de 12 anos como merendeira da EEEF Professora Ondina Cunha, em Pelotas.

Além do trabalho árduo exercido diariamente para atender aos quase 200 estudantes, ela precisa trabalhar aos finais de semana para conseguir recursos que supram os gastos mensais.

“Há muito tempo o que recebo não é suficiente e tenho que me virar fazendo extras. Trabalho em buffets e faço salgados por encomenda. É bem difícil. Sempre estou com empréstimos no banco e consignados em financeiras”, relata.

“A gente está sempre esperando uma margem sobrar para poder pagar alguma conta que ficou para trás. Sempre correndo, pois nunca é o suficiente”, conta Carla.

Diante do fato de o governo ter excluído os funcionários(as) de escola do reajuste, Carla se diz humilhada: “Fico indignada, pois fazemos parte da equipe de profissionais da escola tanto quanto os professores. Sem nosso trabalho, o que seria da escola? Estou muito revoltada com essa desvalorização. É muito constrangedor não conseguir cumprir com meus compromissos financeiros.”

Alexandre Molina Ribeiro, que trabalha há oito anos como monitor contratado nas escolas EEEF Aurélio Porto e EEEF Dr. Jorge Guilherme Moojen, ambas em Montenegro, também passa pelos mesmos problemas.

Atualmente, a função é desempenhada apenas por ele, em ambas as escolas, quando seriam necessários pelo menos mais dois profissionais. “Nem sempre é fácil lidar com a contrariedade e até a rebeldia de alguns alunos. Além disso, temos alunos especiais que necessitam de uma atenção mais direcionada”, explica.

Quanto ao irrisório salário, ele endossa o exposto por Carla e Luciara. “É uma pouca vergonha o nosso salário. A gente vive de forma muito apertada, administrando a miséria que recebemos para poder passar o mês e sobreviver. Quem precisa pagar aluguel, deve passar fome. Tudo aumentou e estamos nessa situação. Qual a dignidade que se tem?”, questiona.

Para conseguir dar conta das despesas mensais, Alexandre também precisou buscar uma alternativa para aumentar a renda. “Dou aulas de box em uma peça da minha casa para grupos pequenos. Se não for assim, não tem como terminar o mês com esse salário. Quando comecei, há oito anos, dava para comprar quatro botijões de gás. Hoje, apenas um”.

CPERS segue pressionando pelo justo reajuste de 14,95% para toda a categoria

Para o Sindicato, é urgente que o governo inclua os funcionários(as) de escola na proposta de reajuste indicada pelo MEC, de 14,95%. É inadmissível que estes educadores(as), tão essenciais no cotidiano das instituições escolares, sigam ignorados.

O governo alega a falta de recursos para deixar os funcionários(as) fora do aumento, porém, um estudo realizado pelo Dieese demonstra que o Executivo estadual tem plenas condições de pagar o reajuste integral para TODA a categoria, professores(as) e funcionários(as), da ativa e aposentados(as), com e sem paridade.

Seguiremos fazendo a necessária luta para a valorização salarial e o reconhecimento dos nossos valorosos funcionários(as) de escola.

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