Em um cenário marcado por reformas neoliberais, intensificação das jornadas e fragilização sistemática das carreiras das(os) educadoras(es), o Departamento de Saúde da(o) Trabalhadora(or) do CPERS promoveu, nesta quarta-feira (10), uma live de grande relevância técnica, política e social para apresentar e debater os fundamentos da pesquisa em andamento “Carreiras Sustentáveis e Trabalho Decente: perspectivas psicossociais no contexto brasileiro”, desenvolvida pela PUCRS em parceria com o Sindicato.
A transmissão, disponível nas redes da entidade, reuniu especialistas da área da saúde para analisar os fatores psicossociais que estruturam — ou rompem — a permanência de educadoras(es) na rede estadual.
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A conversa contou com a participação do psicólogo e doutor em Psicologia, Wagner de Lara Machado, e da psicóloga, mestre e doutora em Psicologia, Manoela Ziebell de Oliveira, responsáveis pela condução científica do estudo, e teve mediação do 1º vice-presidente do CPERS e diretor do Departamento de Saúde da(o) Trabalhadora(or), Alex Saratt.

Na abertura da atividade, Alex Saratt sublinhou que a pesquisa surge da urgência expressa pela categoria e da necessidade de materializar, com rigor científico, a realidade de sobrecarga, sofrimento laboral e exaustão que atravessa o cotidiano das escolas.
“Nossa jornada de trabalho é ‘full time’, invade a vida privada, avança para além do horário escolar e impacta profundamente o corpo e a subjetividade dos educadores. É fundamental transformar essas vivências em evidências robustas”, afirmou.

Ao apresentar os pilares da investigação, Wagner de Lara Machado destacou que o estudo se baseia em referenciais da psicodinâmica do trabalho e da ergonomia da atividade, incorporando dimensões como saúde mental, segurança financeira, reconhecimento social, equilíbrio entre demandas e recursos e perspectiva futura de permanência na função.
Ele alertou que fenômenos como burnout, depressão, exaustão emocional e cinismo ocupacional deixaram de ser exceções da vivência docente. “Estamos diante de uma síndrome debilitante que compromete profundamente a capacidade de permanência laboral. O Brasil figura entre os países com maior prevalência. Esse não é um problema individual, mas um fenômeno organizacional e social”, explicou.
Wagner também contextualizou a intensificação do sofrimento mental no ambiente de trabalho no marco das políticas neoliberais, que comprimem salários, elevam metas, reduzem autonomia pedagógica e produzem a “sociedade do cansaço”: um modelo de hiperprodutividade no qual o trabalhador internaliza a narrativa de que nunca entrega o suficiente.
Esse ambiente tem repercussões graves não apenas para a saúde, mas para a própria sustentabilidade da educação pública. “Quando não há condições dignas, não há futuro. A precarização corrói o que sustenta a carreira.”

A psicóloga Manoela Ziebell aprofundou o caráter multidimensional de uma carreira sustentável. Para ela, sustentabilidade implica sentido, bem-estar, reconhecimento e possibilidade real de desenvolvimento ao longo do tempo. Manoela chamou atenção para um dado preocupante: o afastamento das novas gerações, que observam a realidade laboral com receio. “Hoje, jovens ingressam — ou deixam de ingressar — percebendo um ambiente marcado por demandas exacerbadas e desequilíbrios estruturais. Isso produz um apagão de talentos e intensifica o sofrimento psicológico, ameaçando a própria reprodução da profissão docente.”
Um ponto central destacado na live foi o compromisso absoluto da pesquisa com a proteção dos dados, a confidencialidade das respostas e o cumprimento integral da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). As(os) pesquisadoras(es) enfatizaram que nenhum dado individual será divulgado e que todas as informações coletadas serão utilizadas exclusivamente para fins científicos, de modo anonimizado. Esse cuidado é indispensável para garantir segurança, ética e confiabilidade ao processo, além de estimular a participação ampla da categoria.

Ao final da investigação, será produzido um relatório técnico completo, contendo análises estatísticas, interpretações psicossociais e documentação sistematizada das condições de trabalho e saúde mental que atravessam a educação pública gaúcha. Esse relatório servirá como instrumento estratégico para fundamentar ações políticas, sociais e institucionais, oferecendo uma base científica robusta para reivindicar condições dignas de trabalho e reconstruir a sustentabilidade das carreiras no estado.
Durante a live, o CPERS reforçou que a participação das(os) professoras(es) e funcionárias(os) de escola da ativa é fundamental. Em um cenário de precarização acelerada, transformar vivências em dados é um ato de resistência coletiva. O Sindicato convida todas e todos a assistir à live e a participar da pesquisa, fortalecendo a defesa de trabalho decente, valorização profissional e políticas públicas baseadas em evidências.
>>Confira, abaixo, a íntegra da live:




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