Educação em Tempo Integral: CPERS promove live sobre os desafios na implementação dessa modalidade


Ampliar os horizontes sobre a implementação da Escola em Tempo Integral foi o objetivo do debate, realizado nesta sexta-feira (22), com a participação dos pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Alexandre Silva Virginio e Mateus Saraiva.

O encontro, promovido pela Comissão de Educação do CPERS, foi transmitido ao vivo pelo Facebook do Sindicato e tratou de elucidar os problemas e as qualidades do Programa Escola em Tempo Integral, instituído em julho deste ano pelo Ministério da Educação (MEC). 

O 1º vice-presidente do CPERS, Alex Saratt, deu início à discussão ressaltando a importância de dialogar sobre essa política educacional, unindo as perspectivas acadêmica e sindical. “É fundamental que a gente concretize esse momento com mais perguntas do que respostas, porque os questionamentos são a base do nosso movimento e da nossa luta”, mencionou Alex.

A fim de inaugurar as problematizações, o 2º vice-presidente do CPERS, Edson Garcia, propôs uma diferenciação dos projetos educacionais em pauta. “É importante nós falarmos da educação em tempo integral e da educação integral como propostas distintas e não sinônimas”, alertou Edson. Enquanto a primeira prevê a ampliação do tempo de permanência na instituição, a segunda está focada no desenvolvimento do educando em toda sua dimensão.

Mesmo garantindo ao estudante relações sólidas entre aprendizado e cotidiano e integrando emocionalmente o aluno(a) à comunidade escolar, é fundamental apontar os entraves que se apresentam no contexto da escola em tempo integral. “Quem está no chão da escola hoje, sabe as dificuldades de implementar o modelo pedagógico em questão”, comentou a tesoureira do CPERS, Rosane Zan. Entre os problemas destacados ao longo da discussão, a formação dos educadores(as), a oferta de servidores(as) e o investimento para viabilizar a escola em tempo integral foram preponderantes. 

Ancorado em diversos referenciais teóricos, como Florestan Fernandes, Néstor García Canclini e Paulo Freire, o professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenador do Núcleo de Estudos em Educação, Cidadania e Política, Alexandre Virginio, teceu críticas ao texto do Programa, destacando a superficialidade político-pedagógica do projeto. Segundo ele, é preciso analisar a educação integral para além do ambiente escolar. “A depender da qualidade dos processos de socialização que ocorrem fora da escola, o trabalho realizado dentro da instituição, por melhor que seja, se perde”, explicou o acadêmico. 

Alexandre relembrou o Programa Mais Educação, criado em 2007, e argumentou que o conteúdo do projeto trata de forma mais abrangente da educação integral, enquanto o Programa aprovado recentemente parece limitar-se à ampliação do tempo de permanência na escola.  

Representante do Observatório do Ensino Médio da UFRGS, Mateus Saraiva, apontou a falta de infraestrutura, sobretudo na rede pública estadual, para operar a Escola em Tempo Integral. “Esse modelo demanda condições materiais e quadro de pessoal para uma jornada de no mínimo sete horas diárias. A gente precisa ter sala de aula, refeitório e laboratório para que a escola de tempo integral aconteça”. 

Mateus salientou também as disputas envolvidas na concepção da educação integral, a qual pode exercer tanto um papel autoritário quanto uma função democrática, a depender dos interesses dominantes. Nesse sentido, o pesquisador ressaltou a autonomia que existe dentro do ambiente escolar, possibilitando aos professores(as) uma construção educacional muito mais potente do que lhe é proposta. “A escola é muito melhor do que o que fazem dela”, finalizou.

A diretora do CPERS, Vera Lêsses, afirmou que os professores(as) e funcionários(as) de escola têm tarefas importantes para desenvolver em suas escolas a partir de agora. “A gente precisa garantir o acesso e a permanência dos educandos nos espaços escolares. E para que isso aconteça, precisamos construir políticas públicas para a educação com muita seriedade”, argumentou Vera.  

>> Confira a íntegra da livre abaixo: 

Por fim, ambos convidados chamaram atenção para a formação reducionista incrementada pelo Novo Ensino Médio (NEM) e destacaram a importância da valorização do trabalho dos educadores(as) para além do reajuste salarial. “É preciso que o magistério tenha tempo para planejar qual será seu projeto educacional, já que a responsabilidade do professor na construção das futuras gerações é enorme”, mencionou Alexandre Virginio. 

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