Eletrodomésticos queimados, fiação estragada, ventiladores e ar condicionado sem funcionamento. Muro caído, quadra esportiva sem cobertura, telhado e calhas quebradas. Essa é a realidade enfrentada todos os dias por docentes, funcionárias(os) e estudantes da EEEF Dr. Breno Oswaldo Ritter, localizada em Taquara. Há cinco anos, a instituição vem enfrentando sérios problemas na rede elétrica, na infraestrutura e falta de quadro de pessoal.
Ana Lúcia Neves, diretora da escola, já construiu uma longa história na Breno Oswaldo Ritter. Há 28 anos dedica sua vida à educação pública na instituição. Hoje, é responsável por dirigir o prédio que recebe 255 alunos e alunas, nos turnos da manhã e da tarde. Apesar da paixão pelo ensino público, a profissional se sente desamparada pelo poder estadual.

“A parte nova da escola deve ter uns 45 anos, somada à parte antiga. Eu trabalho aqui há 28 anos e o telhado nunca foi reformado, nem a rede elétrica”, relata a diretora. “A verba que vem a gente gasta sempre na manutenção de coisas pequenas, na compra de material de limpeza, higiene e a gente tem uma pracinha muito velha, que a gente gostaria de colocar brinquedos novos. A gente já até tentou fazer mutirões, mas não conseguimos”, completa.
Infelizmente, o cenário descrito na EEEF Dr. Breno Oswaldo Ritter não é exceção no Rio Grande do Sul. Pelo contrário. São poucas as escolas do estado que não enfrentam problemas estruturais ou que possuem um quadro de pessoal que corresponda às necessidades da instituição.
Dados obtidos pelo “Radar Situação das Escolas Estaduais”, promovido pelo CPERS, indicam a falta de mais de mil educadoras(es) em instituições por todo o estado. A maioria dessa carência são de funcionárias(os) de escola, que atuam nas áreas da merenda, manutenção, administrativo e limpeza.

Há quase 24 anos, Marilete Reis é funcionária pública e trabalha na merenda escolar da Breno Oswaldo Ritter. Ela conta que as funcionárias da escola sentem falta do apoio de mais profissionais, porque a alta demanda da instituição as leva a ter sobrecarga de trabalho e, como consequência, acabam adoecendo.
“A gente sente a falta de mão de obra. Sempre tem poucos funcionários, para uma escola tão grande. Demanda muita comida. Temos gente com atestado médico, porque estão doentes, e acaba que a gente não dá conta”, desabafa a funcionária. “A outra merendeira tem 30 anos de escola e eu tenho 24 anos. A gente já tá cansada, não temos mais aquele pique”.

Sem o amparo da Secretaria da Educação (Seduc) ou do governo do Estado, as funcionárias e funcionários da escola tiveram que tomar medidas de urgência não-convencionais para certas demandas da instituição.
A escola divide seu limite territorial com um pátio do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (DAER) de Taquara, e o muro que demarcava essa divisória caiu. Sem o apoio do poder público, os próprios docentes tiveram que construir uma cerca improvisada com fios de arame, a fim de bloquear a entrada de estranhos no pátio.
“Nesse local, entram vândalos e arrombadores, que acabam depredando a escola”, lamenta Ana Lúcia. Assim como a rede elétrica, a escola aguarda há anos para que um novo muro seja colocado no local.

“Esse terreno pertence ao município, e inclusive está sendo usado para largar dejetos de obras e lixo das enchentes. Eu estive na prefeitura no início de 2023, que me disse que as obras seriam realizadas em 2024. Agora, dizem que não podem fazer obras por conta das eleições. Então, presumo que não será feito nada a respeito”, relata a diretora.
Outro problema estrutural é a ausência de um espaço apropriado para que os(as) estudantes possam ter aula de Educação Física. Não há uma quadra coberta ou um ginásio para comportar as disciplinas que requerem exercícios fora das salas convencionais, apenas uma disposição com concreto sem cobertura. Ana Lúcia explica que as(os) alunas(os) acabam sendo afetadas(os) tanto em dias de chuva, quanto nos dias de sol.
“Os dias têm sido cada vez mais quentes. E nos dias que chove, o intervalo também fica prejudicado, porque a pequena área coberta, que fica entre os prédios, não comporta todos os alunos”, conta.

Os desafios que se apresentam diariamente para as funcionárias(os) e docentes da Dr. Breno Oswaldo Ritter têm sido desestimulantes. E isso é um sentimento conjunto.
“Me sinto muito mal, triste com o descaso. Desde que iniciei no magistério, vejo a educação e as escolas serem sucateadas. Me sinto impotente”, lamenta Ana Lúcia. “Não achamos que as coisas vão mudar, principalmente pelos comentários de que as escolas de ensino fundamental de séries iniciais serão municipalizadas. Desde muito tempo ouvimos sobre isso e, infelizmente, acho que é uma realidade próxima”.

A municipalização das escolas tem sido uma manobra arbitrária do governo de Eduardo Leite (PSDB) em uma tentativa de terceirizar a responsabilidade do poder público estadual, passando a gestão dessas instituições para os municípios. Essa medida, que teve início ainda no governo Sartori (MDB), se acentuou após a posse da secretária da educação, Raquel Teixeira, e tem fechado diversas escolas estaduais no Rio Grande do Sul.
“A gente não sabe como os professores vão ser absorvidos, se o município vai pagar o salário desses professores ou se o estado vai remanejar esses profissionais para outras escolas estaduais que não foram municipalizadas. A gente não sabe como isso vai acontecer e esse é o nosso medo”, relata Ana Lúcia. “Fizemos um concurso acreditando na estabilidade, mas agora a gente não sabe o que vai acontecer e por isso nós temos muito medo”, finaliza.
Se a sua escola também enfrenta dificuldades estruturais ou de pessoal, clique aqui e saiba como contatar o seu núcleo do CPERS e fazer uma denúncia. Chega de descaso! Vamos pressionar o governo Eduardo Leite (PSDB) para que, de fato, valorize a educação pública estadual e as(os) educadoras(es)!




'