Cansaço e repetição: curso online obrigatório continua dificultando a vida dos educadores


As primeiras semanas de isolamento social não foram fáceis para os educadores(as) gaúchos. E o governo pretende continuar dificultando a vida durante a pandemia.

Após problemas na realização do curso online que não funciona, dificuldades para planejar e aplicar atividades a distância e mais um contracheque com descontos incompreensíveis, o governo anunciou nesta segunda o segundo módulo do curso de formação continuada.

Em sua página oficial no Facebook, a secretaria parabenizou os 42 mil docentes que finalizaram a primeira etapa da formação. Porém, não esclareceu se os problemas técnicos foram resolvidos.

Dificuldade de acesso, falhas na programação, interface pouco intuitiva e instabilidade foram as marcas do primeiro módulo.

Conforme reportagem do CPERS, diversos educadores(as) precisaram acessar o sistema de madrugada pra completar o processo e muitos não conseguiram sequer realizar a inscrição.

Além dos problemas técnicos, o conteúdo é pouco estimulante e o acréscimo à formação é questionável, atuando mais como uma forma de controle sobre os educadores(as) e um vetor de angústia em meio às dificuldades do período.

Uma professora que pede para não ser identificada relata: “o governo não se deu conta que temos que planejar, postar a sequência das aulas para nossos alunos, estar disponíveis para atender e explicar individualmente no watts, ter tempo para receber as atividades e corrigir, preencher planilha no e-mail, no diário online e físico e procurar aulas online para que nossos alunos tenham o melhor conhecimento possível. E, com tudo isso, ainda nos obriga a fazer um curso on-line com prazo para entregar provas?”

A educadora, que também é mãe, precisou acessar o curso às 5h da manhã. 

“A pergunta que não quer calar é: o que irão fazer com quem não vence? Com quem não consegue se concentrar o suficiente e tirar a nota mínima? Com quem não consegue fazer porque a internet em casa não é boa? Não precisamos de prazo, precisamos de um ambiente virtual que funcione”, desabafa. 

Conteúdo cansativo e repetitivo 

O primeiro módulo do curso era composto por uma apresentação com 35 slides para compreender como a formação funcionava, leituras obrigatórias e quatro atividades que valem nota e compõem a média final. 

Para finalizar o curso e garantir o certificado de participação é necessário atingir uma pontuação mínima.

O diretor do CPERS e professor de sociologia, Daniel Damiani, realizou a prova e opina:

“A experiência com o curso foi frustrante. Leva-se mais tempo preenchendo cadastros e formulários para acessar os conteúdos e atividades, do que de fato aprofundando algum tema. Salta aos olhos a contradição entre o referencial teórico apresentado na formação, que prega a ampla discussão do currículo, participação da comunidade, respeito às deliberações dos conselhos, com a prática do governo que vem atropelando deliberações do CEEd, impondo um currículo às escolas”.

Em uma das questões os educadores(as) deveriam conceituar o termo  “currículo” em uma palavra. Em outra, conectar palavras com o seu significado. 

A professora e vice-diretora do colégio Cândido José de Godói, de Porto Alegre, Lilian Balbinot, que levou dias para finalizar o curso, não considerou os conteúdos disponibilizados relevantes para o seu dia a dia em sala de aula.

“Uma das questões era um quiz de sim ou não sobre o entendimento da base, uma atividade totalmente sem sentido. Além de várias questões com ‘decoreba’ de legislação, solicitando número de artigos”, conta Lilian.

Já o diretor do Cândido Godói, Mário Antônio da Silva, é ainda mais direto quando questionado sobre o assunto. “O conteúdo é mais do mesmo. Ou seja, não te leva a lugar algum”, diz.

A segunda atividade do curso, que tratava dos marcos legais da rede de ensino público estadual, foi descrita pela maioria dos professores(as) que conversamos como irrelevante, visto que bastava olhar as leis, que já são de conhecimento da maioria, para responder as questões. 

O CPERS orienta os educadores(as) que não estão conseguindo acesso à plataforma ou que não tem condições de realizar o curso que registrem as dificuldades e comuniquem suas direções escolares e as CREs. O atendimento das CREs está sendo realizado online, e os e-mails estão disponíveis neste link.

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