Aulas presenciais: especialistas apontam equívocos na fala da nova secretária da Educação, Raquel Teixeira


Na última terça-feira (30), a recém empossada secretária da Educação do Rio Grande do Sul, Raquel Teixeira, foi enfática no Jornal do Almoço ao defender o retorno das aulas presenciais mesmo sem previsão de vacinas.

“Nós já temos conhecimentos acumulados que mostram que, primeiro, criança não é um grande vetor de transmissão e, segundo, escola não é um espaço de contaminação porque é um espaço controlado”, afirmou Raquel.

Mas, segundo especialistas, a afirmação não se sustenta. Conversamos com profissionais da área da infectologia e da pediatria, que alertaram para os perigos da flexibilização precoce das restrições e o risco existente no ambiente escolar.

“Absolutamente errado”

“É uma frase muito abstrata. O que é um ‘grande’ vetor de transmissão?”, avalia Salmo Raskin, presidente do Departamento Científico de Genética da Sociedade Brasileira de Pediatria.

“O pior é quando ela diz que a escola não é um espaço de contaminação. Isso é absolutamente errado. Seria correto dizer que é um ambiente de transmissão menor do que outros espaços, mas afirmar que não é um espaço de contaminação é ridículo. Para abrir, é necessário ter absoluto controle, coisa que no Brasil não existe”, assevera.

Eduardo Sprinz, médico infectologista, professor da UFRGS e chefe do Serviço de Infectologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, destaca: “a gente sabe que crianças menores do que 12 anos podem não transmitir tanto quanto crianças com idade maior e adultos. Mas isso não equivale a dizer que não há transmissão.”

Sprinz também avalia como “temorosa” a afirmação de que as escolas são ambientes controlados. “Isso eu não sei se adequa às escolas públicas do nosso estado. O ambiente escolar aqui no estado é controlado? Será controlado? Para mim é difícil imaginar esse cenário. É preciso oferecer um ambiente seguro tanto para as crianças quanto para os profissionais que atuam na escola”, diz.

Retomada precoce

Salmo lembra do surto registrado em Israel, em 2020, quando dez dias após a retomada das aulas presenciais, 153 estudantes e 25 educadores(as) testaram positivo em apenas uma escola de Jerusalém.

Estudos recentes no país, na Itália
e no Reino Unido demonstram que variantes do vírus – em especial a inglesa – têm levado a um aumento na infecção de crianças.

Um estudo publicado em outubro na revista científica The Lancet Infectious Disease aponta que, após 28 dias da volta às aulas em 131 países, houve uma elevação de 24% na taxa utilizada para medir o ritmo de propagação do coronavírus.

No Brasil, surtos em escolas têm ocorrido onde as aulas presenciais foram retomadas. Na rede estadual de São Paulo, houve ao menos 741 casos confirmados de Covid só neste ano. Em um colégio particular de Campinas, uma educadora morreu após se contaminar na escola.

As mortes de crianças por Covid-19 no país também vêm aumentando significativamente nos últimos meses. Desde março de 2020, 779 crianças com até 12 anos morreram da doença. Deste total, 24% das mortes e 22% das internações aconteceram nos últimos três meses, segundo o DataSUS.

Escolas fechadas, vidas preservadas

Denise Garrett, epidemiologista, resumiu em artigo recente na Folha: a ciência, não a política, deve conduzir as decisões sobre como e quando reabrir escolas. Três dos cinco princípios fundamentais por ela listados já são desrespeitados aqui. A saber; baixa taxa de transmissão na comunidade, programas de testagem regulares e salas de aula bem ventiladas.

No final de 2020, quando o governo Eduardo Leite (PSDB) forçou a reabertura de escolas, demonstrou o completo despreparo do Estado.

EPIs adquiridos demoraram até três meses a chegar às escolas, nenhum programa de testagem ou de monitoramento de casos foi implementado e sequer reparos básicos – como a adequação de janelas emperradas – foram efetuados neste um ano de pandemia.

O CPERS considera a ampla vacinação dos trabalhadores(as) da educação, mais recursos humanos, físicos e financeiros para as escolas e estratégias de testagem, rastreamento e monitoramento dos casos nas escolas como condicionantes mínimos de um retorno seguro às aulas presenciais.

Para aprender e ensinar, é preciso ter saúde. #EscolasFechadasVidasPreservadas

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