Aula de resistência: comunidade ocupa EEEF Rio Grande do Sul para manter portas abertas


“Quando tu arrombas um cadeado de uma escola, tu estás mostrando que a educação pode ser arrombada pelo Estado. Isso não pode. É inconstitucional”, relata Pablo Camuã, mostrando o que restou do cadeado da EEEF Estado do Rio Grande do Sul. 

Ele é professor da EJA noturno e vice-diretor da instituição, que foi arrombada pela Secretaria de Educação (Seduc) na última quinta-feira (3). De forma arbitrária, o governo Eduardo Leite (PSDB) sumiu com documentos dos estudantes e pertences da escola, forçando a sua mudança para a EEEF Leopolda Barnewitz.

Mas a comunidade escolar resiste. Após o Secretário da Educação, Faisal Karam, afirmar em audiência na sexta-feira (4) que não voltará atrás da decisão, pais, alunos e ex-alunos, professores e funcionários decidiram ocupar a EEEF Estado do Rio Grande do Sul.

De acordo com a Seduc, o prédio será disponibilizado à Fundação de Assistência Social e Cidadania (FASC) para atendimento de pessoas em situações de rua.

Contudo, se a escola for fechada, será o fim de seus 57 anos de história e da oferta de EJA noturno para a região, já que a é a única que disponibiliza a modalidade para a comunidade. Haverá ainda evasão escolar e o remanejamento de educadores(as) para outras instituições sem qualquer organização prévia.

Além disso, a escola atende cerca de 30 alunos com deficiência, que poderão ter o ensino comprometido com a imposição do governo.

“A gente tem professoras especializadas nessa área. Somos uma escola bastante procurada por esse público. Por ser uma escola pequena, é fácil fazer a adaptação e toda a equipe consegue dar uma atenção maior. Também temos salas de recursos. Isso vai se perder seja lá para qual espaço a Secretaria queira nos mudar. Vai ser um prejuízo para as crianças”, diz a diretora Elisa Santana.

Ao todo, a instituição abriga em torno de 280 estudantes, incluindo alunos em vulnerabilidade. “A gente sempre tenta suprir as necessidades, dando atenção, alimentação e respeito. Muitas das nossas crianças têm dificuldade no lar e não têm alimento em casa. Temos cadeirantes, crianças com síndrome e dificuldade de aprendizado e com um nível muito baixo de renda”, expõe o funcionário Bryan Godoi.

De acordo com o vice-presidente da Associação de Moradores do Centro-Histórico, Júlio Quadros, os residentes do entorno são radicalmente contrários à decisão do governo. “Ficamos abismados com essa atitude indigna do governador Eduardo Leite e da Seduc. Nós também nos sentimos parte da escola”. 

Murilo Almerindo, membro da UJC e do Movimento Escola Popular, está ocupando a escola desde sábado. Para ele, a luta é em defesa da educação pública de qualidade para quem mora no centro de Porto Alegre. “A gente acredita que a rede pública é um direito, a base da formação do ser humano. Sem uma educação crítica, a pessoa fica cada vez mais à margem da sociedade”, comenta.

Já a professora, escritora e ex-aluna da EEEF Estado do Rio Grande do Sul, Atena Beauvoir Roveda, afirma que toda a comunidade escolar resistirá e que o governo deve explicações à sociedade.

“A gente não vai sair dessa instituição. Somos muitas e muitas, de 20 a 30 dentro da escola. Mas representamos milhares não só na Capital como no resto do Rio Grande do Sul. O governador, seu secretário e seus servidores esquecem que quem paga os salários deles somos nós. Continuaremos aqui queiram eles ou não”.

“Não é justo que essa comunidade não possa permanecer aqui e seja deslocada para outro território. Só pode ser piada o governo abrir escolas e despejar outras, como ocorre aqui no RS. O direito à educação precisa ser garantido”, pontua Aline Kerber, socióloga e presidente da Associação Mães&Pais pela Democracia.

O CPERS apoia a mobilização e exige o fim da política de desmonte e destruição imposta por Eduardo Leite (PSDB), que tem fechado escolas, turnos e turmas.

“Estamos aqui para prestar toda a solidariedade e exigir que o governo volte atrás de sua decisão, não só pela escola Estado do Rio Grande do Sul, mas também que não feche outras instituições, EJAS e Neejas, e que seja mantido o atendimento para a população gaúcha”, declara Daniel Damiani, diretor do Departamento da Juventude do CPERS.

 

 

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