O Brasil perdeu quase 800 bibliotecas públicas entre 2015 e 2020, de acordo com dados do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP), mantido pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo. Para o ex-diretor da Biblioteca Mário de Andrade e ex-coordenador do Programa Nacional do Livro e da Leitura, José Marques Castilho Neto, trata-se de uma política deliberada de destruição do direito à leitura para todos e todas.

Neto, que também é professor e consultor para políticas públicas de leitura, disse não estar surpreso com a notícia de que eram 6.057 bibliotecas públicas no Brasil e que agora são 5.293, mesmo com o Plano Nacional de Cultura, que tem como uma das metas “garantir a implantação e manutenção de bibliotecas em todos os municípios brasileiros”, e a Lei 13.696/2018, que institui a Política Nacional de Leitura e Escrita (PNLE), abandonados pelo governo atual.

“Com a notória política destrutiva dos governos que se seguiram à derrubada da presidente eleita Dilma Rousseff, principalmente a partir do governo Bolsonaro, não bastava apenas não manter bibliotecas, era preciso forçar o fechamento das existentes”.

Ele afirma ainda que o governo federal tem posições regressivas e contra a cultura. “O governo federal extinguiu programas de incentivo, arrasou as estruturas de governança nos ministérios e nomeou títeres ideológicos que se preocupam apenas a vociferarem contra os que não concordam com suas posições regressivas, anticultura, antieducação, anti-ciência. Isso é o que eles chamam de “guerra cultural” que, como toda guerra, só se preocupa em destruir e nada constrói”, destacou.

Bibliotecas públicas são aquelas mantidas pelos municípios, Estados, Distrito Federal ou governo federal, que atendem a todos os públicos. São consideradas equipamentos culturais e, portanto, estão no âmbito das políticas públicas do governo federal.

O número de bibliotecas fechadas pode ser ainda maior, devido à atual fragilidade do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, após a extinção do Ministério da Cultura, e da falta de controle efetivo pelos sistemas estaduais, cujos dados alimentam o sistema nacional.

A bibliotecária e vice-presidente do Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo (Sindsep), Luciana Melo (Luba), diz sentir tristeza em pensar que neste país há uma narrativa em curso pela valorização das armas e condenação aos livros.

Para ela, vivemos em uma conjuntura difícil para as políticas públicas e a cultura tem sido atacada inúmeras vezes neste governo. Isso passa pelo fim do Ministério da Cultura em 2019. Vetos de Bolsonaro à Lei Aldir Blanc 2 e à Lei Paulo Gustavo, importantes leis de fomento à cultura.

“Recentemente Bolsonaro, ao atacar Lula, disse que ele iria transformar clubes de tiros em bibliotecas, desqualificando este importante equipamento público que hoje é mantido pelos municípios, estados, governo federal e atendem a população de forma gratuita. Fica evidente a falta de interesse e valorização desses equipamentos pelo atual governo”, ressalta Luba.

Segundo Neto, como professor, como leitor, como cidadão, existe um sentimento de revolta ativa contra todo o obscurantismo e regressão que significa o ato de fechamento das bibliotecas e toda tentativa de barrar o direito à leitura das crianças, dos jovens e dos adultos.

“Sinto também um misto de vergonha pelo desprezo que boa parte de nossa sociedade civil e grande parte da elite econômica brasileira têm para as graves questões que envolvem a leitura, o letramento, a alfabetização e o acesso a todas as formas de leituras que temos no Brasil”, ressalta.

O professor disse que a biblioteca de acesso público é um organismo vivo que tem que fazer renascer e cumprir seu papel formador e agregador, como fazem muitas e exemplares bibliotecas públicas, escolares e comunitárias que resistem à destruição de seus valores e missões.

“Para as trabalhadoras e trabalhadores da educação, uma biblioteca viva deveria ser o centro, a essência de seu aprendizado permanente, por toda a vida, fonte de recursos de saber, centro de convivência com seus pares e seus estudantes, fonte de interação social com a comunidade local e com as famílias dos discentes. Enquanto não entendermos que as leituras e as escritas são as chaves para todos os outros direitos humanos na sociedade contemporânea, o nosso país seguirá subalterno, com baixa autonomia e sustentabilidade perante o mundo globalizado”, finaliza.

Minas Gerais e São Paulo lideram em números de bibliotecas públicas fechadas

Das 764 bibliotecas públicas fechadas em cinco anos, 91% estavam localizadas nos Estados de São Paulo e Minas Gerais, sendo em sua maioria bibliotecas municipais. São Paulo tinha 842 bibliotecas públicas em 2015, segundo o SNBP, número que caiu para 304 em 2020, com a perda de 538 unidades em cinco anos. O montante representa 70% de todas as bibliotecas fechadas no país no período.

Luba explica que o estado de SP vivencia uma onda conservadora, retrógrada há alguns anos. Ela lembrou da medida absurda e autoritária do então prefeito de SP, João Dória (PSDB) com o programa “Cidade Linda”, em que mandou pintar o maior mural de grafite da América Latina. Destruindo obras incríveis. Segundo ela, só com este histórico já dá para ter uma ideia do que foi seu governo no estado de SP nos anos seguintes.

“Em 2019 o estado de SP viveu um ‘contingenciamento’ de R$148 milhões do orçamento da cultura, além da ameaça de corte a projetos em diversas cidades. Neste cenário não me surpreende que o estado seja um dos que mais fechou bibliotecas no país”.

 

Fonte: CNTE 

 

 

 

 

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Para marcar o Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, celebrado nesta segunda-feira (25), o Coletivo Regional de Igualdade Racial e Combate ao Racismo do 24º Núcleo do CPERS (Pelotas) realizou uma roda de conversa online para debater o tema.

O vice-presidente do CPERS e diretor do Coletivo Estadual de Igualdade Racial e Combate ao Racismo, Edson Garcia, ressaltou a importância da data para trazer à tona a reflexão necessária. “É um dia para festejar, mas também para refletir. Precisamos enaltecer e valorizar a figura destas mulheres. Vivemos em um país onde 56,2% da população é composta por pretas e pretos”, observou.

Garcia também lembrou da inoperância da Lei 10.639, que trata do ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas. “A Lei foi um grande avanço, mas não existe uma vontade real do governo e das mantenedoras para que seja realmente aplicada”.

“Se as escolas realmente trabalhassem o conteúdo previsto nessa lei, hoje estaríamos, por exemplo, estudando a história de Tereza de Benguela, líder quilombola responsável por combater à escravidão por duas décadas”, salientou.

O vice-presidente do Sindicato destacou ainda que a data celebrada nesta segunda-feira (25) é fruto de políticas públicas de valorização. “Se temos o 25 de julho, que originou o Julho das Pretas, foi devido às políticas públicas feitas por uma mulher, a ex-presidente Dilma, que valorizou a figura das mulheres negras”.

O diretor do 24º Núcleo, Mauro Rogério Amaral, frisou que o tema do racismo tem que ser observado cotidianamente. “Datas significativas como a de hoje nos fazem parar e refletir. Eu sempre trabalho com meus alunos a importância da luta contra o racismo. O caminho é fortalecer a resistência e a luta”, disse.

Racismo é a dor da alma

Durante a roda de conversa, a educadora Bernardete Ávila emocionou-se ao lembrar de um dos tantos episódios de racismo que sofreu durante a infância. “Eu ainda era menina, a minha escola estava formando uma banda e eu cantava. Fui escolhida para ser a mór da banda da escola. Eu e minha família ficamos muito felizes. Imagina, uma menina negra em destaque! Mas, na hora da apresentação fui trocada por uma colega branca. Isso me marcou muito e fico triste ao ver que pouca coisa mudou atualmente. Racismo é a dor da alma, dói muito”, emocionou-se.

Noemia Izolmira Medeiros expôs que em muitas escolas percebe-se a falta de vontade de trabalhar não só os conteúdos previstos na Lei 10.639, mas também trazer o debate sobre a importância da postura antirracista. “Vivemos momentos bastante conturbados nas escolas. Muitas direções se dizem antirracistas, mas não agem dessa forma. Precisamos mudar essa realidade com mais conscientização”.

Raquel Gil, da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Instituições Financeiras do RS (Fetrafi), lembrou da discriminação existente no mercado de trabalho para as mulheres negras. “Para nós, mulheres negras, é uma data muito importante. A gente sabe o quanto ainda há exclusão nos cargos em bancos, por exemplo. Temos que abrir os olhos e os corações das pessoas sobre o perigo do preconceito”.

“As escolas seguem com casos de racismo. Temos que olhar para os nossos alunos e para toda a bagagem que trazem consigo. Nenhum negro quer ir registrar Boletim de Ocorrência, na realidade, o que queremos é não sofrer agressões”, afirmou a tesoureira do 24º Núcleo, Ana Paula Dias Rosa.

“Infelizmente não temos muito a comemorar. Avançamos, mas ainda há muito o que progredir”, acrescentou.

Jeferson Ximendes, educador de uma escola em uma colônia de pescadores na região de Pelotas, relatou o empenho da escola para debater a importância da tolerância e do respeito. “Quando comecei a trabalhar na escola, já percebi que a grande maioria dos alunos eram brancos. Identificamos um racismo muito grande e então decidimos que iríamos trabalhar as diferenças. Hoje acho que conseguimos um bom avanço”.

O CPERS, através dos Coletivos Regionais e Estadual de Igualdade Racial e Combate ao Racismo reafirma sua defesa incondicional de práticas e de uma cultura antirracista, na sociedade e nas escolas e saúda o dia 25 de Julho – Dia Internacional da Mulher Negra, como mais um exemplo de política a ser seguida por outros Governos.

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Relatos de ansiedade, depressão e outros problemas relacionados a saúde mental são cada vez mais frequente entre educadores(as) e alunos(as) no Brasil, principalmente com retorno das aulas presenciais, depois de dois anos de pandemia da Covid-19, e problemas na estrutura educacional, que se arrastam bem antes da crise sanitária.

Essas crises que os trabalhadores e trabalhadoras da educação enfrentam é resultado da exploração de trabalho e da desvalorização do ensino no país, afirma a professora da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Dra. Marilda Gonçalves Dias Facci.

“Há muito tempo a classe trabalhadora vem sofrendo com a exploração e com as condições de trabalho. No caso dos professores, nós temos realizados pesquisas que apontam que muitos professores estão adoecendo e quando a gente vai conversar com eles, fazer uma entrevista ou preencher um questionário, a gente vê o que está acontecendo e o que está provocando esses adoecimentos, como a precarização do trabalho e o pouco investimento na educação”, afirma Facci, que também é membra da Associação Brasileira de Psicologia Escolar Educacional (Abrapee).

A constatação já foi confirmada no estudo “Novas formas de trabalhar, novos modos de adoecer”, realizado com 714 trabalhadores da educação, divulgado no fim de 2021, pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE).

O medo de pegar a doença e a mudança no trabalho, que passou a ser a distância, impactaram a saúde mental dos professores e das professoras e levaram a categoria a solidão e isolamento.

“Trabalhadores hiperativos, competição exacerbada, descarte dos diferentes, exigências incompatíveis com a realidade, desvalorização das entregas, falta de autonomia, opressão burocrática, disponibilidade plena e flexibilidade total, tomando a máquina como ideal da produtividade humana foram alguns dos sintomas verificados nesse novo modelo de trabalho”, diz trecho do estudo, que teve como objetivo central conhecer os impactos do trabalho remoto na saúde emocional nos trabalhadores e nas trabalhadoras em educação.

Danos físicos e psicológicos

Problemas nas cordas vocais, distúrbios osteomusculares, lesão por esforço repetitivo e doenças do aparelho respiratório foram os danos físicos mais notificados pelos docentes.

Segundo Marilda, ainda há muitos professores e professoras afastados da sala de aula porque estão com dificuldades de trabalhar com alunos por conta de adoecimento, teve um acirramento da precarização do trabalho o que já vinha acontecendo anteriormente.

“Com a pandemia as condições de trabalho só pioraram porque o professor ou a professora teve que trabalhar por conta própria, utilizar os seus recursos e equipamentos, sua própria casa para dar aula”, reitera.

Nos danos psicológicos, destacam-se o estresse crônico, ansiedade, depressão e síndrome de Burnout. Os danos sociais que se sobressaíram relacionam-se a sobrecarga, hiperatividade, solidão por ausência do coletivo e assédio moral.

Como sair desta

A Dra. Marilda defende ainda que é importante fazer um trabalho coletivo para ajudar a saúde dos professores, tanto física como psicológica.

“No espaço da sala de aula, nós da psicologia podemos ajudar bastante porque nós podemos criar espaços de acolhimento, de escuta, espaço onde a gente junte os professores em grupo e eles com auxílio de psicólogos, equipe pedagógica e assistente social, de pensar em estratégias para enfrentar toda essa situação de sofrimento”.

O estudo “Novas formas de trabalhar, novos modos de adoecer” também aponta algumas recomendações, como aprimorar processos de escuta, atuar no chão da escola, elencar as carências nas organizações do trabalho, estabelecer estruturas mínimas de tecnologia, definir cursos necessários, entre outras.

“O espaço de discussão é necessário para a humanização da categoria e diminuição das patologias. O fato de poder compartilhar suas inseguranças e medos, faz com que ansiedades diminuam”, diz trecho final do estudo.

Alunos também enfrentam crise

Estudos revelam que com a pandemia e as novas formas de ensinar, impostas pela necessidade de distanciamento social, geraram isolamento e solidão também entre alunos(as).

Essa realidade ganhou um novo elemento com o retorno das aulas presenciais. Em abril deste ano, por exemplo, três casos de crise de ansiedade chamaram atenção em Recife, no qual 26 estudantes da Escola de Referência em Ensino Médio Ageu Magalhães, em Casa Amarela, Zona Norte da capital, passaram mal com falta de ar, tremor e crise de choro.

Para a psicóloga, se o professor está adoecido, com os alunos também não é diferente. Ela diz ainda que tem realizado pesquisa com alunos de universidades de psicologia em relação a ensino remoto e, o resultado aponta ainda que, os alunos afirmam ter “um sentimento de insegurança”, de não saber até que ponto o conhecimento que eles tiveram nos últimos dois anos está realmente preparando-os profissionalmente.

“É esse sentimento que as crianças têm, dois anos afastados da escola. O professor sofre porque quer ensinar e o aluno sofre porque quer aprender. Sofre os dois, professor e aluno”, finaliza a professora e psicóloga.

Fonte: CNTE

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Neste mês é celebrado o Julho das Pretas, momento para combater o racismo contra as mulheres negras e firmar a luta por direito a saúde, educação, emprego, renda, moradia e contra o tratamento do corpo da mulher negra como mercadoria.

As atividades do mês têm como referência o dia 25 de Julho, quando é celebrado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e também o Dia Nacional da Mulher Negra e de Tereza de Benguela.

A data enaltece a vida dessas mulheres que contribuíram e contribuem na construção das resistências e na luta pela emancipação e libertação no Brasil e no mundo, embora esta contribuição seja constantemente apagada e silenciada.

Tereza de Benguela é, assim como outras heroínas negras, um dos nomes esquecidos pela historiografia nacional. Líder do Quilombo Quariterê, Tereza ou “Rainha Tereza”, comandou a resistência às ações de bandeirantes no século XVIII e uniu representantes das populações negras, brancas e indígenas para defender o território onde viviam.

Exemplo de resistência e motivação para continuar a luta pela libertação, Tereza de Benguela inspirou milhares e fez germinar outros quilombos.

Assim como a Rainha Tereza, tantas outras mulheres negras da América Latina e do Caribe seguem rompendo o silêncio, o chicote, a violência, o genocídio e o feminicídio.

Luta contra o racismo estrutural e a desigualdade

O Julho das Pretas também é marcado pela luta por igualdade, emprego e renda para as mulheres negras, primeiras a serem vitimadas por crises econômicas e sociais como a que o Brasil enfrenta atualmente.

Levantamento do Dieese intitulado “A Inserção da população negra e o mercado de trabalho”, referente ao 2° trimestre de 2021, aponta que, além de o desemprego entre as mulheres negras ser o dobro que o dos homens brancos, as que conseguem uma ocupação têm os piores salários e os trabalhos mais precarizados. Somente 1,9% delas ocupam algum cargo de direção.

Esta realidade está enraizada em um Brasil que ainda vive com a herança do colonialismo e dos quase 400 anos de escravidão, em que negros eram sequestrados da África e trazidos para o Brasil como mercadoria.

O Coletivo de Igualdade Racial e Combate ao Racismo Estadual acredita que rememorar as conquistas da Rainha Tereza é celebrar a vida dela e de tantas outras mulheres negras da América Latina que resistem e lutam por seu povo todos os dias. O Coletivo celebra este mês e reafirma o seu compromisso com esta luta! Parabéns à todas as mulheres negras! Salve Tereza de Benguela!

Em alusão à data, os Coletivos de Igualdade Racial e Combate ao Racismo dos núcleos do CPERS, vinculados ao Coletivo Estadual, realizam diversas atividades nesta segunda (25). Contate seu núcleo e saiba como participar!

#JulhoDasPetras

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“No supermercado a prateleira está cheia, o que está vazio é o carrinho que o consumidor está empurrando em direção ao caixa”, reflete o criador do programa Fome Zero, José Graziano da Silva. O ex-diretor da FAO (Organização para a Alimentação e Agricultura – agência das Nações Unidas) e atual diretor do Instituto Fome Zero aponta diversas políticas sociais e econômicas que precisam ser retomadas para que o país volte a sair do Mapa da Fome. Na avaliação de Graziano, o Brasil voltou para o Mapa da Fome devido às decisões tomadas pelo governo Bolsonaro antes mesmo da pandemia. Segundo Graziano, Bolsonaro teve condições para investir na população, mas não priorizou isso. Veja a seguir a entrevista completa ao portal Reconta Aí.

Reconta Aí: O Bolsa Família é um dos programas mais importantes que colaborou para tirar o Brasil do Mapa da Fome. Dá para dizer qual o peso dele na redução da fome e da pobreza?

Graziano: Não há uma medida direta sobre isso. Mas há alguns indicativos importantes sobre o peso dos programas de transferência de renda. Há um estudo do IBGE de 2021 que mostra que sem programas sociais, a proporção de pobres teria ficado em 32,1% em dezembro de 2020. Com os programas sociais, essa proporção cai para 24,1%, uma reducao de 8 pontos percentuais, ou seja, 25%.

pesquisa recente da Vigisan é um outro indicativo interessante. Em abril de 2022, entre as pessoas que recebiam o Auxílio Brasil e o programa Bolsa Família, 44% passavam fome. Entre as pessoas que não recebiam nem Bolsa Família nem Auxílio Emergencial, o número subiu de 44,3% para 57,7% com insegurança alimentar grave. Tomando a população como um todo, a insegurança alimentar chega a 25,7% entre os que recebem o programa Bolsa Família ou o Auxílio Brasil.

Ou seja, um de cada quatro, mostrando que essa transferência de renda é insuficiente para acabar com a fome. Não se acaba com a fome apenas com programas de transferência de renda. Tem que haver melhores salários, geração de emprego de qualidade. Esse foi o caminho que o Brasil seguiu de 2003 a 2014.

Reconta Aí: Quais os outros programas sociais e econômicos que o senhor avalia como fundamentais para retirar, mais uma vez, o Brasil do Mapa da Fome?

Graziano: Vamos separar duas coisas. Existe uma emergência – quem passa fome não pode esperar, como já dizia o Betinho – e aí temos os programas de transferência de renda. E o auxílio emergencial nesse momento, que se for equivalente aos R$ 600 de maio de 2020, teria que ser de R$ 730. Esse tipo de programa é fundamental nesse momento, como são fundamentais as iniciativas do setor privado e da sociedade civil de arrecadação e doação de alimentos. É um tema emergencial!

Mas o que resolve realmente a fome é crescer e distribuir melhor o fruto desse crescimento. Nós temos que ter uma série de programas para geração de empregos de qualidade e programas para elevar o piso salarial, fazer uma melhor distribuição da renda. E não há melhor programa que a política de valorização do salário mínimo. Retomar a política de valorização do salário mínimo agora em janeiro de 2023, dando inclusive um abono de pelo menos de dez por cento, para cobrir a defasagem em que estamos. Então o caminho é por aí: geração de emprego de qualidade.

Um dos programas mais exitosos que tivemos é o programa de aquisição de alimentos da agricultura familiar chamado PAA. Por quê? Porque por incrível que pareça um dos segmentos da população mais afetado pela fome é justamente a agricultura familiar mais pobre, que não consegue produzir nem para garantir sua própria subsistência. Então quando você abre um mercado para eles, de compras institucionais que usam esses produtos na merenda escolar, nos hospitais, até mesmo nas Forças Armadas e nas polícias, isso cria um mercado para essa agricultura mais pobre e isso tem sido muito importante ou foi muito importante na redução da fome no Brasil nesse contingente específico.

Reconta Aí: No governo Michel Temer foi aprovada pelo Congresso Nacional a Emenda Constitucional 95, conhecida como Teto de Gastos. É uma medida macroeconômica que, a pretexto de controlar despesas públicas, acaba por impedir investimentos do Estado em diversas áreas sociais. É possível avaliar o impacto do teto de gastos nesse cenário de retorno do Brasil ao Mapa da Fome?

Graziano: Eu acho que uma das poucas coisas que caminha para uma unanimidade nacional, pelo menos entre os economistas, é que com esse teto de gastos que nós temos hoje é impossível fazer os programas sociais que necessitamos. Nós estamos enfrentando uma situação de calamidade pública como já foi definido. Isso tem que ser relevado por um tempo. Temos que ter outra regra? Bom, essa é uma discussão ainda pendente. Os investidores querem uma certa garantia para os seus investimentos, mas precisa ter uma garantia também que o povo não vai passar fome, não vai faltar escola, não vai faltar saúde. E dentro dos limites hoje existentes isso não é possível. Não dá para acabar com a fome no nível que ela chegou no Brasil com esse teto de gastos.

Não podemos esquecer que nós temos 65 milhões de pessoas passando fome no Brasil, segundo o último dado da Vigisan. O número mais divulgado é da insegurança alimentar grave, onde as pessoas passam pelo menos um dia inteiro sem comer nada, de 33 milhões. Mas isso é um erro. Pessoas com insegurança alimentar moderada, que são outras 32 milhões no Brasil, precisam ser consideradas como passando fome também porque não comem o suficiente para ter uma vida saudável.

É a população da França. Nós temos no país hoje uma França inteira de famintos. Gente passando fome, com as consequências que isso tem pra impacto na saúde, na produtividade do trabalho e no crescimento intelectual e físico das crianças. Essa é a questão que me preocupa mais ainda, da gente comprometer uma geração inteira que passa fome na infância.

Reconta Aí: O governo Bolsonaro enfraqueceu ou abandonou vários programas sociais importantes para conter a pobreza. O governo federal dispunha de recursos no orçamento para manter os programas sociais dos governos anteriores, especialmente os programas dos governos Lula e Dilma? Quais ele poderia ter mantido? Ou a única solução seria acabar com o teto de gastos?

Graziano: O governo Bolsonaro podia perfeitamente ter mantido todos esses programas de segurança alimentar e nutricional inclusive ampliado no momento de crise. Não faltou recurso para isso. Foi uma decisão deliberada e que vem antes da pandemia. Na verdade, estava em curso um desmonte das políticas de segurança alimentar junto com outras políticas sociais quando veio a pandemia. E aí a única medida na contramão desse desmonte foi o auxílio emergencial em maio de 2020, que foi dado pelo Congresso Nacional no valor de R$ 600 porque a proposta original do governo era algo em torno de R$ 200. Era preciso de alguma maneira ampliar o existente Bolsa Família.

Então, deu R$ 600 para 65 milhões de pessoas. Não pode esquecer desse número. E depois foi reduzindo gradativamente até chegar aos 20 milhões de pessoas, que é absolutamente insuficiente para fazer frente a essa população faminta.

Se isso cabia dentro do teto de gastos? Eu acho que a pergunta que tem que ser feita é outra. Se cabia dentro do teto de gastos toda essa lambança que se fez com o orçamento secreto e com essa premiação política de recursos dos mais variados. Quer dizer, se tivesse invertido, se tivesse primeiro aplicado no gasto social, que eu acho que deve ser considerado um investimento em saúde, em nutrição das pessoas, combate à fome, eu tenho certeza de que haveria dinheiro suficiente.

Reconta Aí: Pela sua experiência, quanto tempo o senhor acha que o Brasil levará para sair novamente do mapa da fome?

Graziano: Nós já sabemos o que tem que ser feito. E temos instrumentos que não tínhamos antes, não só a legislação, como temos o Cadastro Único. Uma das coisas que mais demorou no início do programa Fome Zero, quando comecei a implantar, é que não tinha uma lista de pessoas. Você sabia que tinha gente com fome, mas não tinha o nome, o endereço e a conta bancária para fazer o depósito deles. Hoje nós temos um cadastro único que pode acelerar o processo, como temos legislação do PAA, como temos a legislação da merenda escolar com compras da agricultura familiar. Ou seja, uma série de leis que estão prontas para serem postas em prática. Isso pode abreviar o processo.

Por outro lado, nós temos uma dimensão de fome nunca vista no país. Exceto naquelas grandes secas do nordeste no início do século passado. Não temos isso, nem durante a guerra se tem notícia de um nível tão grande da população nessa situação. Sessenta e cinco milhões, em duzentos milhões, nós estamos falando de praticamente quarenta por cento da população passando fome. Um país de famintos. Isso demora um tempo. Mas eu acho que um número estimativo razoável é que em quatro anos dá para eliminar a fome mais grave, a insegurança alimentar grave, que são os trinta e três milhões de pessoas – que são literalmente as pessoas que não comem, não tem o que comer no dia a dia.

Aí temos que cuidar daqueles que estão comendo menos do que o necessário ou também daqueles que estão comendo mal que é um agravante da situação hoje. Nós temos uma percentagem importante – cerca de vinte e cinco por cento da população que está em insegurança alimentar leve. Ou seja, não come frutas, verduras, legumes; come praticamente só arroz e farinha. E isso deve levar a um debilitamento e a um problema crônico de obesidade. O Brasil hoje é um dos campeões de obesidade da América Latina. Isso afeta tanto ou mais as mulheres e crianças, que é a fome. Precisamos cuidar disso também, mas isso vamos dizer são etapas posteriores do processo. Acho que em quatro anos dá para acabar com a fome grave.

Reconta Aí: Como uma parcela significativa da população brasileira está em situação de insegurança alimentar em um país que é uma potência agropecuária?

Graziano: A FAO destaca que o Brasil e a América Latina sofreram o maior retrocesso nesse segundo ano da pandemia. E esse retrocesso se deve ao agravamento da crise econômica em função da dependência da região da exportação de commodities, principalmente commodities metálicas – caso aqui por exemplo do Chile que depende do cobre. Mas também queda dos preços das commodities minerais, que foi retomada agora no início de 2022 com um aumento do preço do petróleo em função da guerra da Ucrânia. O aumento do preço do petróleo contamina, vamos dizer, todos os outros preços de commodities, devido ao aumento de custos aí de transporte de custos de produção.

Boa parte dos fertilizantes são derivados de petróleo. Mas há um segundo elemento que a FAO destaca também que é muito importante, que é o nível de concentração de renda na região. E o Brasil é o campeão disso na América Latina. Nós temos um nível de concentração de renda o mais alto do mundo e é isso que faz impactar qualquer queda no poder aquisitivo, aumenta desproporcionalmente o número de pessoas na miséria. O faminto não tem acesso às condições básicas da sua sobrevivência, não tem dinheiro nem para comer.

Reconta Aí: A força política do agronegócio – uma das expressões é a bancada ruralista no Congresso Nacional – poderá inviabilizar a retomada e o fortalecimento de programas como o PAA ou o PNAE? Ou a criação de programas voltados para a viabilizar a política de subsídios à dieta saudável da FAO?

Graziano: Nós estamos vivendo uma situação no Brasil onde ao lado da pujança da nossa produção agropecuária que bate recordes sucessivos de exportação, mandando alimentos, cereais e carnes para o mundo todo, isso externamente e internamente, o outro lado da moeda é que temos um país de famintos. Muita gente espanta com isso, mas o que sempre digo é que infelizmente uma coisa não tem nada a ver com a outra, no sentido de ser considerada causa e consequência.

A pujança, o aumento das exportações brasileiras, é a saída encontrada para queda do poder aquisitivo, para redução do nosso mercado interno. Não tem mercado interno para absorver a produção. Então a saída é exportar. Não quer dizer que seja uma boa saída, mas é a saída encontrada para o agronegócio. O problema do consumo é outro setor. Não estamos falando de produção. A fome no Brasil hoje não é um problema de produção, não falta arroz, feijão. No supermercado a prateleira está cheia, o que está vazio é o carrinho que o consumidor está empurrando em direção ao caixa.

O que eu acho que é inviável politicamente é um país ser o maior exportador de frango e a população desse país comer pé de frango, pele de frango, carcaça de frango como a gente está vendo se multiplicar. Isso é fatal para a imagem do agronegócio, como tem sido fatal essa imagem de desmatamento da Amazônia. Eu acho que nenhum produtor de frango, nenhum grande exportador vai se sentir seguro em produzir mais, se essa situação transparece internacionalmente.

A bancada ruralista faz a defesa do agronegócio, dos grandes produtores. Ela vai querer sempre ter compensações. Então cada centavo que você der para o PAA, ou para o Pnae, vai ter que dar alguns milhares de dólares para eles na forma de crédito, na forma de isenção de impostos das exportações. O Brasil não paga imposto para exportar, diferentemente da Argentina, por exemplo, que tachou as exportações de soja, para criar um fundo para subsidiar o consumo de pão. Essa é uma medida que poderia ser feita no Brasil, subsidiar os produtos saudáveis, com uma sobretaxa do aumento dos preços de exportação.

Então há muitas políticas para fazer, mas não são as políticas prioritárias para a bancada ruralista. Eles vão se opor às políticas que não lhes interessem. Possivelmente o país vai ter que decidir na política, principalmente no início do governo. Daí a importância dessa eleição, não só do presidente, mas também da bancada que vai compor o Congresso. Se continuarmos com um Congresso formado basicamente com a bancada do boi, a bancada da bala, bancada ruralista entre outras, dificilmente vamos conseguir alterar ou promulgar as leis que nós precisamos para enfrentar essa catástrofe que o país está vivendo.

Por Silmara Cossolino (22/07/2022)

Fonte: CNTE

Foto capa: Catraca Livre

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De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), 28,9% da população enfrenta a insegurança alimentar moderada ou grave no Brasil. As crianças podem ser as mais atingidas pela fome crescente no país e sem merenda nas férias escolares isso pode piorar, inclusive o desenvolvimento dos alunos corre risco.

Uma merendeira de escola pública em São Paulo, que não quis se identificar, disse que trabalha numa comunidade onde mais de 60% das crianças frequentam regularmente a escola só para se alimentar e que neste recesso escolar não sabe como estas crianças estão se alimentando.

“Trabalho numa comunidade muito carente e, como na maioria das escolas, 60% dos alunos se alimentam nas unidades de ensino porque é uma comida boa, de qualidade e bem temperada. As crianças brigam por isso, comem e repetem, e se pudesse levariam para casa. Agora nas férias era para ter um projeto de merenda, mas não foi pra frente. Não sabemos como estas crianças estão se alimentando”, afirmou a merendeira.

Ela contou que a escola está abrindo normalmente todos os dias em horário comercial e as funcionárias vão lá cumprir o horário, mas que um projeto de servir marmita, por exemplo, como aconteceu na pandemia, seria de muita importância.

De acordo com estudos da Associação Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação (Fineduca), entre 2014 e 2019 os investimentos no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) foram reduzidos em R$ 924 milhões, ou seja, 18,9%. E entre 2018 e 2019, houve uma queda de R$ 200 milhões nas despesas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) com o PNAE.

Diante do cenário de fome crescente no país, especialistas consultados pela BBC News Brasil apontam que as crianças podem ser as mais atingidas. Durante os primeiros anos de vida, a evolução do cérebro acontece a uma velocidade incrível — a 1 milhão de conexões entre neurônios por segundo. E a desnutrição pode impactar diretamente no fornecimento de nutrientes necessários para esse desenvolvimento.

A presidenta da CUT São Paulo, que é professora de educação artística e dirigente na Apeoesp, Telma Aparecida Andrade Victor, disse que neste momento no de recesso escolar e com tanta gente passando dificuldade, seria papel do Estado manter a merenda e a alimentação para as mães de crianças, jovens e adolescentes para que tem mais necessidades e precisam.

“Um governador consciente do seu papel de ajudar a população, sabendo da dificuldade que estamos passando neste país, onde Bolsonaro conseguiu colocar milhões de brasileiros e brasileiras na extrema pobreza, deveria viabilizar esta assistência porque são as escolas públicas que atende o povo sem distinção e na sua plenitude”, afirmou ela.

Segundo o banco de dados DataSUS, do Ministério da Saúde, 13,78% das crianças de até 5 anos atendidas pelo SUS de janeiro a setembro de 2021 apresentavam peso inadequado.
Para a professora é preciso “continuar lutando para que a população tenha o direito básico, que é de se alimentar porquê de barriga vazia ninguém aprende. A escola pública, gratuita, inclusiva, laica e de qualidade é com crianças alimentadas, para que elas tenham uma aprendizagem de verdade”.

Projeto para combater a fome

Vindo na contramão da realidade atual, o senador Rogério Carvalho (PT-SE) apresentou o Projeto de Lei (PL) 1.901/2022, que prevê que alunos de escolas públicas poderão ter direito de se alimentar pelo menos duas vezes ao dia com a quantidade ideal de nutrientes para a idade.

No artigo da lei que determina que “alimentação escolar é direito dos alunos da educação básica pública e dever do Estado”, a proposta adiciona um parágrafo para estabelecer que esse direito “compreende a efetiva disponibilização aos alunos de pelo menos duas refeições diárias completas, atendendo-se, integralmente, à ingestão diária recomendada de proteína, vitaminas e minerais para cada faixa etária”.
Em Belo Horizonte, segundo reportagem do G1, o projeto “Fome nas Férias” tem o objetivo de arrecadar alimentos e entregá-los para famílias da comunidade Helena Greco, no bairro Zilah Spósito, na Região Norte da capital mineira.

“A merenda é a garantia de refeição balanceada no dia a dia de 100 mil famílias que se encontram em extrema pobreza. Para essas crianças, nos períodos sem aulas é que a fome enfrentada pela família fica visível e se torna uma realidade a ser encarada” , diz a Associação Comida que Abraça.

 

Fonte: CNTE

 

 

 

 

 

 

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O Fórum das Centrais Sindicais encaminhou um ofício ao secretário-chefe da Casa Civil do governo, Artur Lemos Junior, solicitando uma reunião de emergência com o governador Ranolfo Vieira Junior (PSDB) para que seja enviado com urgência o Projeto de Lei para o reajuste do Salário Mínimo do Rio Grande do Sul.

As centrais reivindicam 15,58% de reajuste. Trata-se da inflação acumulada do mês de fevereiro mais os 4,5% que não foram repassados no reajuste anterior.

Segundo o documento entregue, “o viés ideológico com que parcela do setor empresarial intransigente trata esse tema não é nenhuma surpresa. Trata-se apenas do velho discurso de que o estado não deve intervir nas relações entre capital e trabalho. Esquecem eles que, neste caso, se não houver um arbitramento do estado, milhares de trabalhadores e trabalhadoras permanecerão com seus salários congelados, diante de uma inflação galopante que corrói cotidianamente o poder de compra destes assalariados.”

O presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB/ RS), Guiomar Vidor, que assina o pedido em nome do Fórum das Centrais Sindicais, ressalta que é preciso resolver logo o reajuste porque as pessoas estão passando fome, estão sem reajuste desde fevereiro deste ano, aguardando uma posição do governo. “Não é nenhuma novidade que a inflação galopante vem corroendo a renda das famílias trabalhadoras, por isso a uma urgência na resolução desse assunto”, completou.

 

Reajuste impacta no salário dos funcionários de escola

 

O Salário Mínimo Regional atinge justamente as categorias de trabalhadores mais frágeis, como as domésticas, moto-boys, entre outros. São mais de 1,5 milhão de trabalhadoras e trabalhadores que dependem deste reajuste.

Na educação, mais de 12 mil funcionários(as) de escola recebem o salário base de R$ 620,75 e mais o completivo para chegar ao valor do mínimo regional. Ao apresentar um reajuste que sequer considera o aumento da inflação, o governo arrocha ainda mais o salário destes profissionais, que se encontram sobrecarregados.

“Por conta de uma indecente política salarial de arrocho, nossos colegas funcionários de escola vivem uma situação de miserabilidade aguda e vergonhosa.  Além de prestarmos solidariedade às demais categorias e fortalecer a união de trabalhadores e trabalhadoras, a luta pelo reajuste do salário mínimo regional representa concretamente a possibilidade de ganho salarial a um percentual expressivo do segmento de funcionários”, destaca o presidente em exercício do CPERS, Alex Saratt.

“O governo Ranolfo/Leite, dando continuidade à política de Sartori, deve aos trabalhadores, por isso nós do CPERS temos dito que é preciso fazer a luta nas escolas, nas ruas e nas urnas, elegendo governos e parlamentos comprometidos com o povo, com os direitos e com o desenvolvimento”, acrescenta.

 

LEIA AQUI A CARTA COM A SOLICITAÇÃO

 

Fonte: CTB

 

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Frequentar aulas de música, gratuitamente, na própria instituição está longe de ser a realidade na imensa maioria das escolas públicas gaúchas. Mas, na ETE Senador Ernesto Dornelles, em Porto Alegre, este cenário é real. Não por ações do governo, mas por iniciativa de alunos(as) e da direção da escola.

Desde maio deste ano os estudantes participam do projeto “Música na Escola” e já realizaram diversas apresentações.

Diariamente, após o término das aulas, o estudante do curso técnico de Design de Interiores, Mário Mantovani, tocava o teclado doado por uma ex-professora. Vendo o talento do aluno, a diretora da escola, Isabel Lopes, sugeriu uma apresentação na festa de 76 anos da escola. Junto a outros estudantes, Mário realizou a apresentação e após isso vieram alguns convites para que o grupo se apresentasse fora da instituição.

Este foi o pontapé inicial para que Mário apresentasse o projeto à direção solicitando que fosse realizado na escola. A diretora abraçou a ideia e desde maio sete estudantes ensaiam no local.

“Ele propôs chamar os colegas que tocassem algum instrumento. E na festa de comemoração dos 76 anos da escola lá estavam eles ainda tímidos, em sua primeira apresentação. Eles já realizaram diversas performances, inclusive para um público com quase 500 pessoas. É lindo ver que eles sempre querem fazer melhor”, relata a diretora Isabel Lopes.

“É um projeto musical cultural dentro da escola, que tem como objetivo colaborar com a instituição apresentando conteúdo musical e cultural através da música usando os talentos existentes. Muitos têm instrumentos, sabem tocar mas não tinham oportunidade”, explica Mário.

“Quando vi o projeto concretizado, acontecendo mesmo, eu me senti realizado. É muito bom quando vemos algo que planejamos acontecendo na prática”, diz Mário.

O estudante, que toca teclado, bateria, violão e guitarra, já está pensa futuramente disponibilizar oficinas. Por enquanto, o projeto é oferecido aos alunos(as) que já possuem algum instrumento e saibam tocar. “No momento, fazemos os ensaios com a banda que montamos. Mas meu objetivo é ampliar o projeto, oferecendo oficinas para ensinar outros estudantes a tocar algum instrumento e , a curto prazo, melhorar a qualidade do grupo, ensaiando mais para apresentar um conteúdo cada vez melhor. No segundo semestre faremos uma nova chamada para alunos que queiram participar”, afirma.

“Mesmo sem verba pública para investir no Projeto, nem condições para ensaios, pois a música infelizmente não faz parte do currículo de formação dos estudantes, estaremos juntos dando o apoio e o incentivo que eles merecem”, incentiva Isabel.

>> Confira no vídeo trechos de apresentações do projeto “Música na Escola”:

Arte que inspira e transforma

Elisabete Sophia, aluna do 2º ano do Ensino Médio, toca flauta transversal no projeto e conta que no início teve um certo receio de participar, mas que hoje sente-se realizada. “Tinha vergonha, mas meus amigos me incentivaram. Foi uma das melhores coisas que fiz. Na escola, quase não se vê essa parte da cultura. Em pouco tempo já conseguimos nos apresentar na escola e em outros lugares. Sermos aplaudidos pelo nosso esforço é muito especial”.

Para Renan Ferreira, que está no 1° ano do Ensino Médio e toca guitarra e baixo, a iniciativa é um incentivo para que os estudantes possam expor seus talentos. “Despertou o interesse dos alunos e incentivou a exporem seus dons. Eu adoro tocar. Não imaginava que em tão pouco tempo já teríamos feito apresentações e lives. Antes eu ia de casa para o colégio e do colégio para casa e agora temos a banda. Estou amando”.

A diretora da Comissão de Educação do CPERS e tesoureira do Sindicato, Rosane Zan, teve a oportunidade de conhecer o talento dos alunos(as) em uma atividade da escola.

“Projetos como esse reafirmam que a escola pública tem muita qualidade. Apesar de todo o descaso e desafios que enfrentam, educadores e estudantes realizam ações que nos enchem de orgulho e que deveriam ser reconhecidas e incentivadas pelos governos que aí estão”, destaca Rosane.

Para o CPERS, iniciativas como a da escola Ernesto Dornelles são essenciais para o fazer-pedagógico no chão da escola. Promover ações que façam com que o educando confie em suas potencialidades e, apesar de uma realidade social cruel, possam acreditar que é possível mudar sua qualidade de vida através do trabalho desenvolvido na escola. 

Sair do convencional, do decorar conteúdo, faz com que os alunos(as) sejam agentes de construção, buscando conhecimentos que sejam do interesse deles e por conta disso participem mais ativamente do dia a dia das aulas. 

O Sindicato luta pela valorização dos projetos político-pedagógicos de cada instituição educacional e da necessária relação currículo-docência, que deve sempre afirmar a natureza e o caráter público, gratuito, laico, inclusivo e democrático na escola pública.

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“O ‘Novo Ensino Médio’ é uma forma prática de executar o que o governo Bolsonaro, na voz de seu quarto (ex) ministro da educação, proclama: que os pobres podem até sonhar com a universidade, mas não é desejável que todos tenham acesso a ela”. Essa frase de Gaudêncio Frigotto abre o editorial da nova edição da revista Retratos da Escola – número 34, volume 16 – que tem como tema: “O que esperar do Novo Ensino Médio?”.

O dossiê desta edição é organizado pelas professoras Shirlei de Souza Corrêa (Univille), Cássia Ferri (Furb) e Sandra Regina de Oliveira Garcia (UEL). A publicação tem como objetivo analisar e aprofundar os debates sobre o tema, particularmente preocupante em 2022, quando a reforma desta etapa de ensino está em plena implementação. O que esperar de uma reforma que, ao tomar como base a divisão dos currículos por itinerários formativos, nega aos estudantes o acesso a uma formação comum e qualificada, descaracterizando o ensino médio como etapa da educação básica, na qual importa a continuidade e o aprofundamento de uma formação integral?

>> ACESSE AQUI A REVISTA RETRATOS DA ESCOLA COMPLETA

O que esperar de uma imposição que desconsidera as críticas das entidades nacionais do campo educacional para atender às demandas do setor privado, em detrimento do interesse público? As organizadoras do dossiê oferecem um denso trabalho, exigindo que ampliemos as nossas reflexões – e ações! – frente à pretendida ‘inovação’ que nega a possibilidade de um ensino médio abrangente, condição para uma leitura independente da realidade social, política e cultural.

Este dossiê dá continuidade aos debates sobre a reforma do ensino médio que a Retratos da Escola vem realizando, como em 2017 (v. 11, n. 20), por exemplo, quando apresentamos o dossiê A Reforma do Ensino Médio em Questão, à época organizado pelas professoras Monica Ribeiro da Silva e Leda Scheibe. Aquele era um momento em que o país se via frente à reforma recém-decretada por medida provisória e logo instituída como lei pelo governo golpista.

Ao lado de potentes análises, a edição contou com o documento de autoria da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) sobre a reforma do ensino médio e a necessidade de revogação da Lei 13.415. Este documento sintetiza os ataques à educação pública, que acontecem desde o golpe de 2016 e encontraram solo ainda mais fértil no governo de Jair Bolsonaro, e os prejuízos que a reforma do ensino médio ocasiona à formação dos/as jovens brasileiros/as.

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Trazer para a sala de aula o debate sobre os principais preconceitos enfrentados pela sociedade atual como racismo, homofobia, xenofobia, intolerância religiosa e desigualdade de gênero e fazer os estudantes refletirem e expressarem os sentimentos quanto a esses assuntos. Esse foi o trabalho proposto pelo professor de geografia e sociologia, Cristian Guilherme Lino, da EEEM Ildefonso Pinto, em Campo Bom.

Lino propôs para os estudantes do 2º ano do Ensino Médio desenvolverem uma peça teatral com roteiro e uma apresentação sobre o tema escolhido. “A sociedade brasileira vem enfrentando sérios problemas em relação à empatia, se faz necessário que todos tenhamos acesso ao conhecimento”, declara o professor.

Para ele, o resultado foi satisfatório: “Foi surpreendente os roteiros, as apresentações e o empenho dos estudantes, visto que muitos fazem parte das minorias trabalhadas no enredo”, destacou.

O professor destaca que debater esses assuntos em sala de aula é importante para a formação dos alunos(as) como cidadãos.

“Trabalhar os preconceitos que muitas pessoas vivem diariamente é de suma importância, pois estamos formando uma sociedade mais consciente, participativa e plural”, conclui.

Alunos aprovam a proposta

“Foi ótimo! Consegui entender melhor o outro lado e que muitas pessoas sofrem diariamente com algum tipo de preconceito e muitas sofrem caladas”, conclui a estudante Jacqueline Schneider, que apresentou trabalhou sobre a homofobia.

“Precisamos aprender e também ensinar a como respeitar a sexualidade, a cor, religiões, enfim, a escolha do próximo. Eu gostei bastante de fazer o mini teatro sobre um assunto tão importante”, analisa o estudante Anderson Borges, que no seu trabalho falou sobre a intolerância religiosa.

A estudante Júlia Rodrigues, que abordou o tema desigualdade de gênero, conta que os colegas que apresentaram o trabalho com ela se surpreenderam com o desenvolvimento da atividade. 

“No meio das falas a gente pensava, por que eu vou ter que falar algo tão ruim assim? Mas é importante, porque nos faz refletir e crescer socialmente, entender que esses temas são importantes na sociedade por tratar de pessoas, desmistificar esse estereótipo e abordar ele informalmente como o professor fez, foi muito bom”, concluiu Júlia. 

A força da educação pública

Para o CPERS, iniciativas como a do professor Cristian são essenciais para o fazer-pedagógico no chão da escola. Promover ações que façam com que o educando confie em suas potencialidades e, apesar de uma realidade social cruel, possam acreditar que é possível mudar sua qualidade de vida através de trabalhos desenvolvidos em sala de aula. 

Sair do convencional, do decorar conteúdo, faz com que os alunos(as) sejam agentes de construção, buscando conhecimentos que sejam do interesse deles e por conta disso participem mais ativamente do dia a dia das aulas. 

O Sindicato, através da sua Comissão de Educação, luta pela valorização dos projetos político-pedagógicos de cada instituição educacional e da necessária relação currículo-docência, que deve sempre afirmar a natureza e o caráter público, gratuito, laico, inclusivo e democrático na escola pública. 

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