Morre aos 93 anos Cecy Brittes de Benites, a professora que transformou a sineta em um símbolo de luta


É greve. Desde a Praça da Matriz, uma multidão de educadores(as) protesta contra salários de fome.

A Brigada Militar encastela o Palácio Piratini enquanto o governador se nega a receber os manifestantes.

Como uma revoada de agudos, um tilintar de sinetas varre as ruas do Centro Histórico.

Poderia ser hoje. Mas o ano é 1985.

“A Sineta Milagrosa”

De luvas brancas para proteger as mãos e portando duas sinetas – “grandes, bonitas, de bronze” – a professora Cecy Brittes de Benites engajava-se na sua primeira greve. Foi ela que, no dia anterior, sugeriu: o Magistério precisa de um símbolo.

“Estávamos numa reunião. Todo mundo queria qualquer coisa que nos mantivesse unidas. Havia o apito dos bancários, o grito de guerra dos operários, todo mundo falando e dando palpite e então comecei a me lembrar de Guaíba. Lá do Grupo Escolar Itororó. Havia uma sineta grande, de bronze, que eu tocava todas as manhãs. Devo ter pensado em voz alta, porque de repente estava todo mundo dizendo muito bem, grande ideia, é isso aí.”

O instrumento, utilizado para marcar os períodos de início, intervalo e término das aulas nas escolas públicas estaduais do passado, passou a ter outra conotação: o protesto.

A espantosa mobilização curvou o governador Jair Soares, que até então tentava manipular a opinião pública e desmoralizar o movimento paredista. Acuado, Soares se viu obrigado a negociar.

As pautas da época são velhas conhecidas da categoria. O governo havia descumprido o acordo da greve de 1980, que previa a fixação de um piso equivalente a 2,5 salários mínimos.

Além de uma nova garantia de pagamento, a mobilização histórica assegurou o direito ao 13º salário, a eleição de diretores de escolas e a destinação de 35% da receita para a educação.

Dois anos depois, o governo Pedro Simon repetiu o antecessor e traiu o professorado, descumprindo o acordo e aprofundando o arrocho. Outra greve se iniciava.

Cecy e seu “escudo contra a ditadura”

A frustração de Cecy foi registrada na sensível entrevista de Paola Gione publicada no Jornal da Semana, edição de maio de 1987, cujas páginas ilustram esta matéria.

“- Nunca pensei que tivéssemos que fazer uma greve para defender um direito adquirido por outra greve. Imagine, querem nos pagar parceladamente, como se fôssemos um eletrodoméstico.”

Em seguida, a entrevistada afugentou o desânimo e pediu à repórter:

“- Diga ao Magistério que não se acovarde, porque se nós cairmos desta vez, nunca mais vamos levantar.”

Não caímos.

Das mãos de Cecy – anônima, esquecida e mal paga – a sineta fez-se um símbolo a ecoar por gerações.

Há, no seu badalo, um duplo significado: a denúncia de uma eterna promessa descumprida e o anúncio de que dias melhores virão, mas não sem luta árdua e inquebrantável resistência.

In memorian

No dia 21 de março de 2021, Cecy faleceu aos 93 anos de idade em Porto Alegre, vítima de complicações da Covid-19.

Com a ajuda da sua filha, Ana Manssour, resgatamos um pouco da sua trajetória, tão ímpar e tão familiar, e esperamos honrar seu legado.

Cecy nasceu no interior de Alegrete no dia 7 de maio de 1927. Sonhava em ser advogada e aos 16 já discursava em praça pública.

Mas o Magistério se pegou nela, como uma pele, até fazer parte do seu corpo e ser a sua própria vida.

Estudou no Instituto de Educação Oswaldo Aranha e formou-se normalista com a intenção de lecionar em Porto Alegre e ficar próxima da Faculdade de Direito.

“Mas o destino já estava tecendo seus fios e pondo sinetas no seu caminho.”

Nomeada em Guaíba, foi morar na casa de parentes na Riachuelo, do outro lado do rio.

Era penoso o caminho para chegar ao pequeno Grupo Escolar Itororó – que mais tarde lhe assaltaria a memória naquela reunião, transformando a história dos protestos do Magistério.

“Eu levantava todos os dias às quatro e meia da madrugada e ia pegar o ônibus para a Vila Assunção. Lá tomávamos a barca e atravessávamos o rio. Quando chegávamos do outro lado, tínhamos que caminhar mais dois quilômetros”

Após, casou-se e deu à luz a filha Ana, que gentilmente nos enviou imagens do jornal que conta a história de Cecy.

Passou então a residir em Porto Alegre, atendendo a uma escola sem nome, na Vila Assunção. Graças a uma peça por ela promovida com alunos(as), a instituição viria a se chamar Cândido Rondon.

Posteriormente, Cecy conseguiu se formar em Letras e lecionou por 14 anos no Paula Soares.

O resto é História. Ana conta que a sua mãe viveu os últimos anos com lucidez e a mente afiada, apesar dos problemas de saúde típicos da idade.

“Ela sempre criticava a falta de valorização dos professores, tanto como profissionais quanto pela péssima remuneração e ainda piores condições de trabalho. Ela via que, como consequência, os próprios professores vão se desencantando e perdendo o empenho”, lembra.

Até as vésperas da morte ela manteve o interesse em acompanhar os acontecimentos e discutir política.

“Muito enfática e sem papas na língua, como sempre foi. Apontava erros e desmandos, e xingava dos vereadores ao presidente sempre que não dessem a devida importância à educação e à saúde da população. A consciência dela em relação ao valor da voto sempre foi enorme.”

No dia 12 de março, Cecy testou positivo para Covid-19. Internada na sexta-feira no Hospital Beneficiência Portuguesa, faleceu na madrugada de domingo, 21 de março, por fadiga respiratória.

“O que mais me dói é que por um ano inteiro não a abraçamos nem beijamos, quando visitávamos à distância, para protegê-la. Ela acabou morrendo sem nenhum de nós podendo estar perto dela para segurar-lhe a mão. Por outro lado, estamos gratos por ela não ter chegado a ser intubada e por ter ficado apenas dois dias hospitalizada, sabendo que inúmeras pessoas sofrem por muitos dias em UTIs ou aguardando atendimento”, reflete Ana.

Cecy Brittes de Benites, cuja história se confunde com a nossa, partiu. Mas jamais nos deixará.

Sempre que uma de nós cai, outra se levanta. Com a espinha ereta, o peito cheio de coragem, sede de justiça e a sineta nas mãos.

E as sinetas que agora, neste mau momento parecem dobrar como os soturnos sinos de finados, um dia voltarão a cantar, altas e cristalinas, chamando os filhos de um novo mundo. E quando eles correrem, alegres e felizes para as escolas, seja onde for, haverá uma Cecy.

Não mais esquecida, tampouco anônima. Ontem, agora e sempre: Cecy presente!

 

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