Governador, deixe a nossa escola aberta: pais, alunos e educadores clamam por não fechamento de instituições de ensino


“Meus filhos estudam ali desde a primeira série, minha filha tem atraso mental e quem identificou foi uma professora da escola, hoje ela lê e escreve. Se meus filhos tiverem que sair de lá, onde eles vão estudar? Para onde vão nossas crianças?”.

Esse foi o apelo da mãe Maria Luísa Fernandes, durante audiência pública da Comissão de Educação, realizada nesta segunda-feira (11) na Assembleia Legislativa, para debater a situação das Escolas Abertas do Rio Grande do Sul.

São instituições voltadas a acolher adolescentes e crianças em situação de vulnerabilidade social, encaminhadas por órgãos de proteção à infância e adolescência. Ainda assim, desde 2015 penam nas mãos de governantes que não levam em consideração suas características especiais de ensino.

Maria Luísa tem dois filhos matriculados na EEEF Ayrton Senna, uma das quatro Escolas Abertas do estado que há anos sofrem com constantes ameaças de fechamento.

“O governo nos trata como números e as pessoas como matrícula, mas a educação não é dígito, ela é humana. As escolas abertas possuem uma proposta pedagógica diferenciada, um compromisso diferenciado. A desculpa de que porque possuem poucos alunos devem fechar, é absurda”, expõe a deputada estadual Sofia Cavedon, presidente da Comissão.

O fechamento das escolas abertas pode ter consequências devastadoras para as crianças que lá estudam. Em sua maioria, são jovens órfãos, residentes em abrigos ou com necessidades especiais, com dificuldades de adaptação ao ensino regular, e que encontram nessas um espaço de afeto e socialização.

O 2° vice-presidente do CPERS, Edson Garcia, destacou que o CPERS seguirá firme na luta para defender esse acolhimento e atendimento diferenciado. 

“Precisamos de mais responsabilidade com a educação, as escolas abertas não deveriam ter que reafirmar sua importância a cada novo governo, esse entendimento já deveria ser de todos. Seguiremos juntos nessa batalha, porque o CPERS vai sempre defender toda escola pública contra qualquer governo que ameace o seu funcionamento”, destacou Edson.

Deulbio Soldati, representando as Casa de Acolhimento da FASC, de Porto Alegre, relatou a diferença que as escolas abertas fazem na vida das crianças que chegam aos abrigos da capital.

“São crianças muito sofridas, que já passaram por muitas dificuldades, por isso, um dos nossos principais objetivos é restabelecer o convívio social delas. O retorno à escola é muito importante para que elas se sintam inseridas e acolhidas. E essas duas escolas fazem esse trabalho, o de reconstruir o que foi tirado dessas crianças”, contou Deulbio.

A deputada estadual Luciana Genro, que também integra a Comissão de Educação, destacou a ausência de representantes da Seduc no encontro e o total descaso do governo com a educação pública gaúcha. 

“O governo está abandonando quem mais precisa dele. Este desmonte da educação pública é uma política. O Faisal (Karam) está na Seduc para cortar gastos e não para melhor a educação no Rio Grande do Sul. Precisamos mobilizar todas as nossas forças e denunciar para que o governador escute que não vamos aceitar calados”, solicitou Luciana. 

“A escola aberta é nossa”

“Não podemos deixar as escolas abertas morrerem. Essas crianças precisam da gente, porque nossas escolas são o último alento delas, que já vieram de outras instituições onde não se adaptaram. Lá elas eram invisíveis, aqui elas recebem a atenção que precisam”, clamou a diretora da EEEF Vila Cruzeiro do Sul, Jaqueline Pontes Ferreira.

Com cartazes e olhares preocupados, professores(as), pais e alunos das escolas abertas de Porto Alegre, EEEF Vila Cruzeiro do Sul e EEEF Ayrton Senna, participaram da audiência pública, reafirmaram seu amor pelas escolas e deixaram um recado para o governo: “a escola aberta é nossa e vamos lutar por ela”.

O diretor da Ayrton Senna, Adroaldo Machado Ramos, relatou que as investidas do governo estão cada vez mais fortes.

“Desde 2018 não nos deixam mais abrir turmas e estamos com falta de pessoal. Eles estão sucateando a nossa escola para nos fechar. Mas se a escola regular não tem o perfil para receber nossos alunos, para onde vão nossas crianças?”, indagou Adroaldo. 

Na escola Vila Cruzeiro do Sul, os ataques também são cada vez mais constantes. A instituição está desde o início do ano sem merendeira, sem orientadora educacional e, em 2019, a Seduc encerrou o atendimento em turno integral da instituição.

“Estamos acompanhando essa luta desde o governo Sartori. As escolas abertas ainda não fecharam por sua resistência. E a lógica do governo Sartori permanece no governo Leite, que olha somente para os números e considera que uma escola com poucos alunos deve ser fechada. É o olhar da tesoura, do corte, da total insensibilidade”, destacou o diretor do CPERS, Daniel Damiani. 

São justamente as comunidades mais frágeis que sofrem com este desmonte da educação. Políticas frias, que olham apenas para os números, e desconsideram as condições especiais e as consequências que essas ações terão na vida dessas crianças, que encontraram nas escolas abertas um espaço de acolhimento.

A orientadora educacional da escola Cruzeiro do Sul, Clarice Oliveira, observa que se as escolas abertas fecharem, esses alunos estarão com o destino incerto. “Os professores de escolas regulares, por mais competentes que sejam, não conseguem dar conta dessas crianças. Nas escolas abertas eles são um membro importante da sociedade, e não mais um aluno na lista de chamada”, destacou. 

Para a professora da Ayrton Senna, Silvia Schmidt, o trabalho que executam vai muito além do ensino. “Essas crianças precisam ressignificar seus afetos, seu aprendizado. Na escola aberta, além do compromisso do acolhimento, temos o compromisso com o empoderamento delas”.

Pablo Joaquim Fernandes Pessoa, aluno da Cruzeiro do Sul, relembra as dificuldades que enfrentou nas outras escolas por onde passou. 

“Eu cheguei lá quando eu tinha 10 anos, porque eu não conseguia aprender a ler e a escrever. Ano após ano eu não aprendia, agora eu aprendi”.

Quando questionado sobre o fechamento da escola, Pablo lamenta: 

“Se fechar eu vou ter que ir para outra escola e lá eu não vou ter a mesma atenção. Eu não quero nem pensar nisso. Eu quero um dia fazer uma faculdade, talvez eu estude medicina ou seja jogador de futebol, mas sem a escola aberta eu não sei se consigo”.

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