Especialista estima que 2060 crianças de 0 a 9 anos morreram por complicações da Covid-19 no Brasil


Apesar de evidências apontarem que a morte de crianças por Covid-19 é rara, no Brasil, um novo levantamento calcula que 2.060 crianças menores de nove anos, incluindo 1.302 bebês, podem ter morrido por complicações causadas pelo vírus. 

Os dados foram publicados em reportagem da BBC nesta quinta-feira (15).

Segundo o Ministério da Saúde, entre fevereiro de 2020 e 15 de março de 2021, a Covid-19 matou pelo menos 852 crianças brasileiras de até nove anos, incluindo 518 bebês menores de um ano.

Mas, de acordo com pesquisa conduzida pela Dra. Fátima Marinho, epidemiologista da Universidade de São Paulo e conselheira sênior da ONG internacional de saúde Vital Strategies, o número pode ser pelo menos duas vezes maior.

Em seu levantamento,. Fátima calculou o excesso de mortes por síndrome respiratória aguda durante a pandemia, constatando 10 vezes mais óbitos do que nos anos anteriores.

O cálculo levou à estimativa de que o vírus matou, na verdade, 2.060 crianças menores de nove anos, incluindo 1.302 bebês.

Para Renato Kfouri, presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria, o grande número de casos de Covid-19 no país – o segundo maior do mundo – foi diretamente responsável pelo aumento da probabilidade de bebês e crianças pequenas serem afetadas.

“É claro que quanto mais casos tivermos e, por consequência, quanto mais internações, maior será o número de óbitos em todas as faixas etárias, inclusive crianças. Mas, se a pandemia fosse controlada, esse cenário evidentemente poderia ser minimizado”, diz.

Essa alta taxa de infecção sobrecarregou o sistema de saúde do Brasil. Em todo o país, o suprimento de oxigênio está diminuindo, há uma escassez de medicamentos básicos e, em muitas UTIs, não há mais leitos.

O presidente Jair Bolsonaro, que sempre minimizou a pandemia, continua se opondo ao lockdown, uma das medidas mais eficazes no combate ao coronavírus.

No Brasil, a taxa de infecção está sendo impulsionada por uma variante chamada P.1, que surgiu em Manaus, no ano passado, e é considerada muito mais contagiosa. Duas vezes mais pessoas morreram no mês passado do que em qualquer outro mês da pandemia e a tendência de aumento continua.

Falta de testes e vulnerabilidade social aumentam risco de morte

Entre os problemas que impulsionam as altas taxas em crianças estão a falta de testes e a vulnerabilidade social.

Conforme a Dra. Fátima, muitas vezes o diagnóstico de Covid-19 em crianças chega tarde, quando já estão gravemente doentes. “Temos um problema sério na detecção de casos. Não temos exames suficientes para a população em geral, menos ainda para as crianças. Como há um atraso no diagnóstico, há um atraso no atendimento à criança”.

Isso também ocorre porque é mais fácil não perceber, ou diagnosticar erroneamente, os sintomas de crianças que sofrem do vírus, já que a doença tende a se apresentar de forma diferente em pessoas mais jovens.

Um estudo observacional de 5.857 pacientes com Covid-19 com menos de 20 anos, realizado por pediatras brasileiros liderados por Braian Sousa, da escola de medicina de São Paulo, identificou comorbidades e vulnerabilidades socioeconômicas como fatores de risco para o pior resultado do vírus em crianças.

A Dra. Fátima concorda que esse é um fator importante. “Os mais vulneráveis ​​são as crianças negras e as de famílias muito pobres, porque têm mais dificuldade em obter ajuda. Estas são as crianças com maior risco de morte”.

Ela afirma que isso ocorre porque as condições de moradia superlotadas impossibilitam o distanciamento social quando infectados e porque as comunidades mais pobres não têm acesso a uma UTI local.

Essas crianças também correm o risco de desnutrição, o que é “péssimo para a resposta imunológica”, diz.

Quando os auxílios econômicos em meio à pandemia cessaram, milhões voltaram para a pobreza. “Passamos de 7 milhões para 21 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza em um ano. Portanto, as pessoas também estão passando fome. Tudo isso está afetando a mortalidade”, conclui a epidemiologista.

Informações: BBCMinistério da Saúde

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