Do samba à luta: Portela faz da Sapucaí um território de memória da ancestralidade negra gaúcha


O CPERS, por meio do Departamento de Combate ao Racismo e do Coletivo Estadual de Igualdade Racial e Combate ao Racismo,  manifesta seu reconhecimento e sua profunda admiração pelos desfiles das escolas de samba do Carnaval de 2026, realizados no Sambódromo Marquês de Sapucaí, na cidade do Rio de Janeiro.

Mais uma vez, o carnaval reafirmou seu papel como uma das maiores expressões culturais e políticas do povo brasileiro, transformando a avenida em um território de valorização da ancestralidade negra, de respeito às religiões de matriz africana e de enfrentamento ao racismo estrutural. O samba, nascido da resistência e da criatividade do povo negro, segue sendo uma poderosa ferramenta de memória, denúncia e afirmação da identidade afro-brasileira.

Diversas escolas levaram à avenida enredos que exaltaram a história, a memória e a resistência do povo negro, reafirmando o compromisso histórico do samba com a verdade e com a justiça. Agremiações como a Estação Primeira de Mangueira, o Acadêmicos do Salgueiro, a Beija-Flor de Nilópolis e a Acadêmicos do Grande Rio reafirmaram, por meio de seus desfiles, a centralidade da cultura afro-brasileira na formação do país, evidenciando que o carnaval é também um espaço de educação popular, consciência histórica e fortalecimento da luta antirracista.

De forma especialmente simbólica e emocionante, a Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela levou para a avenida a história e a presença do povo negro no Rio Grande do Sul, projetando para o Brasil e para o mundo a trajetória de luta, organização e contribuição da população negra gaúcha.

Ao destacar referências fundamentais como o Príncipe Custódio Joaquim de Almeida, liderança religiosa, política e cultural de enorme relevância, especialmente em Porto Alegre, a escola contribuiu para resgatar e valorizar uma parte essencial da história que por muito tempo foi invisibilizada.

O enredo “O Mistério do Príncipe do Bará — A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande” homenageia uma das mais importantes referências da cultura afro-gaúcha. Originário do Benin, na África, Príncipe Custódio viveu em Porto Alegre desde o início do século XX até sua morte, em 1935, aos 104 anos, consolidando-se como uma liderança espiritual e política fundamental para a preservação das tradições africanas no sul do país. Sua atuação foi decisiva para o fortalecimento do Batuque, principal religião de matriz africana do estado, e sua trajetória representa a resistência, a organização e a afirmação da dignidade do povo negro em um contexto de profundas desigualdades e exclusão. Sua memória permanece como símbolo de liderança e luta, destacando a presença negra como parte estruturante da história gaúcha.

O desfile da Portela reafirmou que o povo negro do Rio Grande do Sul resiste, constrói, ensina, trabalha, celebra e mantém viva a ancestralidade que sustenta a identidade do nosso estado. Nossa presença é parte fundamental da formação social, cultural, política e histórica do estado e do Brasil.

O Departamento de Combate ao Racismo e o Coletivo Estadual de Igualdade Racial e Combate ao Racismo do CPERS reafirmam seu compromisso permanente com a luta antirracista, com a valorização da história e da cultura negra e com a construção de uma educação pública que reconheça, respeite e valorize as contribuições do povo negro. Nossa história é viva. Nossa ancestralidade é força. E nossa luta segue, com dignidade, memória e esperança!

 

 

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