Degradação, e honra ao ensino e à educação / Por Francisco Marshall, professor


Ouvi o áudio da agressiva entrevista à presidente do CPERS, professora Helenir Aguiar Schürer, conduzida pelo diretor de jornalismo da Rádio Guaíba, Guilherme Baumhardt, com amparo de colegas dele, nesta finada rádio, nessa segunda-feira p.p., 26/04/2021. É algo degradante, vergonhoso. Pela baixeza do conteúdo, recuso-me a reproduzir o áudio, que ora circula por WhatsApp e deve estar no Soundcloud. Algumas palavrinhas, todavia, são imperativas.

Em primeiro lugar, os parabéns à professora Helenir Schürer, que soube manter a serenidade, a lucidez e a educação mesmo em um ambiente de boçalidade, ignorância e más intenções, como o que lhe impuseram 3 ou 4 valentões prevalecidos bradando meias-verdades com a arrogância de quem emite sentenças e palavra revelada. A professora realizou grande feito ético, estóico, e merece aplauso. Sua atitude mostra a diferença entre uma educadora educada e maus comunicadores deseducados.

Em segundo lugar, o episódio torna explícita a crise ou colapso do que um dia foi jornalismo na rádio que já abrigou Flávio Alcaraz Gomes e Juremir Machado da Silva, sendo este, com Taline Opplitz, responsável por um dos programas mais notáveis da história do radiojornalismo brasileiro, o Esfera Pública. Sei muito bem do papel do diretor de jornalismo supracitado na extinção daquele memorável programa, e das finalidades políticas do ataque perpetrado.

Deu-se um desmonte do jornalismo pela democracia em favor da doutrinação pela ideologia. No caso, a ideologia de extrema-direita, reacionária, que infesta esse país há alguns anos, e tenta impor, com triunfalismo e brutalidade, uma agenda de obscurantismo antidemocrático. É este o quadro: a extrema direita ocupou esta e outras trincheiras da sociedade para suprimir liberdade, informação e consciência emancipada. Sua meta é unicamente atacar o que chama de esquerda, a democracia, a sociedade esclarecida, mas em favor do quê, mesmo? Deste Brasil de horrores que ora vivemos? Do subdesenvolvimento? Do ódio? Da violência? Do abandono da luta social necessária para se mitigar a iniquidade nesta terra ingrata? Que quer a extrema-direita? Destruir. Destruir meio ambiente, educação, ciência, arte, direitos humanos, o Estado e também nossa auto-estima, na era da vergonha máxima. Nada edificar, apenas degradar, e soterrar com vileza a liberdade e a democracia. Troféu genocídio para esses agressores.

A degradação atinge também um sujeito que conheci jovem e que por algum tempo me pareceu promissor, e com quem colaborei com simpatia e cordialidade. Todavia, tomou todas as sendas erradas, e voluntariamente manietou-se à alienada ideologia pseudo-liberal brasileira, em clubes de opiniões de direita e extrema-direita, a custa da inteligência, do jornalismo, da sobriedade, e, como este episódio ilustra, também da educação. Que decadência precoce, que triste destino de um filho de professor de Universidade pública, que se compraz em atacar a professores, à ciência e à Universidade pública (como se viu em 2020, no episódio da disputa pela reitoria da UFRGS). Acho isto patético, lastimável e, pelo que noto, já insolúvel. Triste fim.
Entre muitas bravatas e sofismas, tal programa ainda agrediu à Associação Mães & Pais pela Democracia, como se esta fosse algo diferente do que é, defensora republicana da democracia, da liberdade, da ciência e da educação. Cabe uma gargalhada olímpica ao vermos um militante que toma o microfone para agredir com ideologia rasteira vir julgar com ironia quem defende a democracia. Ridículo.
Por fim, àqueles deseducados, ofereço um espelho para que reflitam sobre seu machismo vergonhoso e sobre a agressão à dignidade de educadoras e educadores, sobre o descaso aos princípios elementares do bom jornalismo e da civilidade, sobre o ataque à liberdade e à democracia. Ainda há juízes em Berlin e gente lúcida no Brasil.
Por Francisco Marshall, historiador, arqueólogo e professor da UFRGS

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