
A EJA, historicamente responsável por garantir o acesso à escolarização para jovens trabalhadoras(es) excluídas(os) do sistema regular e pessoas que não puderam estudar na idade adequada, vêm sendo progressivamente abandonada pelos governos estaduais. O patamar atual segue drasticamente inferior ao de anos anteriores, evidenciando uma política de redução estrutural da oferta. Esse encolhimento ocorre em paralelo à diminuição geral da rede estadual, que perdeu mais de 20% das matrículas no período, além do fechamento de escolas e turmas.
RS não cumpre papel no Pacto Nacional e EJA segue sem políticas efetivas
Apesar de o Rio Grande do Sul integrar o Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo e Qualificação da EJA — iniciativa do governo Lula (PT), criada em 2024 para alfabetizar, ampliar a escolaridade e fortalecer a modalidade —, o governo Eduardo Leite (PSD), Gabriel Souza (MDB) e a secretária Raquel Teixeira não têm cumprido seu papel. Pelo contrário, pouco têm feito para garantir a permanência no programa.
“Falta uma política de busca ativa para estudantes da EJA. Nos últimos governos, nunca houve um planejamento consistente e ações concretas para o fortalecimento da modalidade — muito pelo contrário”, aponta Guilherme Reichwald Jr, integrante do Fórum Estadual de EJA do RS e do Coletivo Nacional da EJA-EPT da Rede Federal e professor do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSUL), campus Sapucaia.

O dirigente observa que a atual demanda no Rio Grande do Sul é de cerca de 4,9 milhões de pessoas acima de 15 anos que não possuem a educação básica completa. “Dizer que não há estudantes é um argumento antigo, que ignora dois pontos centrais. Primeiro, a ausência de busca ativa nos territórios onde estão essas pessoas, além da falta de esclarecimento de que a EJA é um direito garantido em lei e deve ser ofertado pelos sistemas públicos. Segundo, a localização das escolas e das turmas de EJAs, que precisam estar em espaços de circulação que facilitem o acesso e o retorno de trabalhadores e trabalhadoras”, reforça.
Guilherme ainda destaca: “A Seduc não tem ações efetivas nem presença do Estado na promoção do Pacto. A maior prova disso é o fechamento sistemático de turmas, a dificuldade de disponibilizar matrículas e também o fechamento de escolas de EJA”, conclui.
SOS: EJAs e NEEJAs lutam para sobreviver no RS
O cenário está diretamente relacionado a escolhas políticas do atual governo do Estado, que vem promovendo o enxugamento da rede pública, o fechamento de turmas — especialmente no turno da noite, onde a EJA é majoritária — e a ausência de políticas efetivas de permanência e busca ativa de estudantes.
Com base no estudo do DIEESE, os dados organizados na Tabela 5 revelam que o Rio Grande do Sul ocupa apenas a 13ª posição no ranking nacional de matrículas na Educação de Jovens e Adultos (EJA). O estado é superado por unidades da federação com populações significativamente menores, como o Piauí, com 45.684 matrículas, e a Paraíba, com 33.265. Além disso, registra menos de um quarto do volume de matrículas observado em estados como Bahia e São Paulo, evidenciando a dimensão da retração da EJA no território gaúcho.

O professor de história, Silvio de Oliveira, vice-diretor do Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos (NEEJA) de Cultura Popular Paulo Freire, localizado em Porto Alegre, trabalha com a EJA desde 2013 e com o NEEJAdesde 2015. Ele conhece bem a luta diária para manter essas modalidades no ensino público gaúcho.
A instituição é a única que oferece EJA e NEEJA na Alfabetização, no Ensino Fundamental e Médio no RS. E desde 2015 (época do governo Sartori) travam uma batalha para continuar com esse modelo de ensino. “A Seduc quer ter quatro ou cinco professores chamados aplicadores de provas no NEEJA. A gente vem fazendo essa briga para manter o grupo de professores completo para oferecer as mais diferentes aulas, com todas as disciplinas para que os jovens, adultos e idosos possam assistir as aulas quantas vezes eles quiseram, pois é um direito deles que não foi garantido quanto criança e adolescente para concluir seus estudos”, explica.

O professor chama a atenção para quem são os estudantes da escola: “60% são mulheres, negros, LGBTQIA+, imigrantes, ou seja, todos aqueles grupos excluídos pelas mais diferentes razões da escola regular e que buscam na EJA e nas NEEJAs a oportunidade de terminar seus estudos”, destaca.
Silvio observa que o governo Leite (PSD) ao invés de ajudar, dificulta ainda mais a vida dessas pessoas. “Tentando fechar escolas, retirar professores, os colegas que se aposentam eles não substituem. Então é uma situação bastante difícil, uma tensão permanente, isso há 11 anos, é muito ruim. O processo pedagógico fica extremamente prejudicado nessa situação”, lamenta.
Além de tudo que a escola já vem lutando, desde o início de fevereiro deste ano, as(os) dirigentes, educadoras(es) e estudantes da instituição foram pegas(os) de surpresa em ter que dividir o espaço da escola com o Corpo de Bombeiros, o que começou com três salas se tornou em metade do prédio. “O trabalho do Corpo de Bombeiros é importante, mas não é adequado dividir o prédio de uma escola. É absolutamente antipedagógico. É mais uma amostra do descaso e desrespeito do governo com a educação como um todo e com a EJA e o NEEJA. Eduardo Leite mostra ser uma boa pinta, mas por trás é um destruidor dos serviços públicos e da educação pública”, afirma Silvio.
Jorge Nogueira, professor de sociologia, leciona na EJA há 13 anos e atualmente trabalha na EEEM Agrônomo Pedro Pereira, em Porto Alegre. A instituição, no momento, oferece seis turmas de Ensino Médio — duas de cada série (1º, 2º e 3º ano) —, mas já chegou a ter 12 turmas, número que foi reduzido ao longo de dois anos e meio.
O educador pontua que a EJA nunca foi prioridade do governo Leite (PSD) e que a modalidade tem sido cada vez mais desvirtuada de sua função original. “A EJA vem sendo tratada como um Ensino Fundamental e Médio resumido. Acabaram com a noção de totalidade, em que o estudante era avaliado no seu conjunto. Com isso, o estudante da EJA pode ser reprovado por apenas uma disciplina, enquanto no ensino regular avançaria podendo reprovar em até quatro disciplinas”, ressalta.

O professor ainda aponta outro problema: os cancelamentos de matrículas. “É comum o estudante da EJA desaparecer por duas ou três semanas, às vezes até mais tempo, sem que a escola consiga localizá-lo na busca ativa. Ainda assim, a orientação é cancelar a matrícula. Como cancelar a matrícula de um estudante que não foi localizado? Depois, ele retorna e encontra sua matrícula cancelada. Temos participado de formações no ‘Pacto pela EJA’, mas as orientações da mantenedora [Seduc] vão no sentido oposto ao que é trabalhado nessas formações”, afirma.
Para o CPERS, o que está em curso no Rio Grande do Sul é um projeto deliberado de desresponsabilização do governo do Estado com a educação pública, que atinge de forma ainda mais cruel os setores mais vulneráveis da população. A destruição da EJA e do NEEJA significa negar oportunidades, ampliar desigualdades e comprometer o futuro de milhares de gaúchas e gaúchos.
Diante desse cenário, o Sindicato reafirma a necessidade urgente de recomposição da oferta nessas modalidades, reabertura de turmas, valorização das(os) profissionais da educação e investimento público robusto. Defender a EJA e o NEEJA é defender o direito à educação ao longo da vida — e resistir ao desmonte promovido pelo governo de Eduardo Leite (PSD), Gabriel Souza (MDB) e Raquel Teixeira.




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