R$ 2.418,83. Esse seria o salário inicial das(os) professoras(es) da educação básica, para uma jornada de 40 horas semanais, em 2026, caso o Piso Salarial Profissional Nacional do Magistério não existisse e o valor de referência de 2009 tivesse sido corrigido apenas pela inflação. A estimativa consta em estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos do Rio Grande do Sul (DIEESE-RS).
A realidade, entretanto, é outra. Graças à Lei nº 11.738/2008, sancionada durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Piso Nacional chegou a R$ 5.130,63 em 2026, mais que o dobro do valor projetado na simulação. A diferença evidencia a importância de uma política nacional de valorização salarial e mostra o quanto a categoria poderia perder sem uma legislação que estabelecesse parâmetros mínimos para os governos.
O levantamento compara a evolução do Piso Nacional desde 2009 com uma simulação de quanto valeria o salário caso tivesse acompanhado exclusivamente o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Enquanto o piso acumulou uma variação de 439,99% entre 2010 e 2026, a inflação acumulada no mesmo período foi de 154,63%.
Mais do que garantir a reposição das perdas inflacionárias, a Lei do Piso estabeleceu uma referência nacional para o vencimento inicial do magistério público da educação básica, impedindo que a remuneração das(os) educadoras(es) ficasse inteiramente sujeita às decisões de cada governo estadual ou municipal.
O estudo do Dieese também evidencia que a valorização salarial não acontece automaticamente. Ela depende de regras, investimento público e, sobretudo, de governos comprometidos com a educação.

Um exemplo está no reajuste de 2026. Pela fórmula de cálculo anterior, o aumento estimado seria de apenas 0,37%, abaixo da inflação de 2025, que chegou a 3,90%. Para evitar que o Piso Nacional perdesse poder de compra, o governo Lula (PT) editou a Medida Provisória nº 1.334/2026, posteriormente convertida na Lei nº 15.437/2026. Com a mudança, o reajuste chegou a 5,40%, garantindo um aumento acima da inflação.
A medida demonstra como decisões políticas podem fazer diferença concreta na remuneração das(os) trabalhadoras(es) da educação. Garantir a reposição inflacionária é o mínimo. Construir mecanismos que permitam ganhos reais é parte de uma política efetiva de valorização profissional.
O contraste também aparece na realidade do Rio Grande do Sul. Segundo o Dieese, em 12 anos, as(os) educadoras(es) da rede estadual receberam apenas uma revisão geral de 6%. O cenário revela os efeitos de uma política salarial que não assegura sequer uma recomposição adequada das perdas acumuladas.
Além disso, o problema não se resume ao valor anunciado para o Piso. Estados e municípios ainda descumprem a legislação, deixam de aplicá-la corretamente nos planos de carreira ou utilizam gratificações e outras parcelas para evitar a valorização do vencimento básico.
Que projeto de educação queremos para o Brasil?
Os números ajudam a colocar uma questão fundamental no centro do debate político: que projeto de país e de educação está em disputa?
A criação do Piso Nacional, em 2008, foi uma decisão política que estabeleceu um compromisso do Estado brasileiro com a remuneração dos profissionais da educação. Por outro lado, a realidade dos estados e municípios mostra que não basta uma legislação nacional se os governos não assumem o compromisso de cumpri-la integralmente. No Rio Grande do Sul, a falta de revisão salarial, a desvalorização das carreiras e os ataques aos direitos do funcionalismo demonstram que a valorização do magistério ainda está longe de ser uma prioridade.
Em um ano eleitoral, essa discussão ganha ainda mais importância. A escolha de representantes e governantes tem consequências diretas sobre o financiamento da educação, a política salarial, os planos de carreira e as condições de trabalho nas escolas. Não se trata apenas de comparar discursos, mas de avaliar trajetórias, decisões e compromissos concretos.
Para o Dieese-RS, a valorização do magistério precisa contemplar muito mais do que o pagamento do mínimo nacional. É necessário assegurar o cumprimento integral da lei, sua aplicação nos planos de carreira, a realização de concursos públicos, salários dignos e condições adequadas de trabalho.
O departamento também destaca a importância de ampliar a valorização para os demais profissionais da educação e defender o investimento de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) em educação pública.
Para o CPERS, os dados reforçam uma lição histórica: direitos não são concessões espontâneas de governos, mas conquistas da organização e da luta coletiva. Ao mesmo tempo, sua manutenção e ampliação dependem de decisões políticas.
O Piso Nacional mostrou que é possível avançar quando há compromisso com a educação pública e com quem constrói seu cotidiano. Agora, o desafio é impedir retrocessos e avançar para uma valorização que alcance toda a carreira, respeite a formação dos educadores e garanta condições dignas de trabalho.
Piso se conquista. Valorização se constrói. E a educação pública precisa de governos comprometidos com quem ensina.




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