“Em diversas ocasiões, saí chorando do trabalho”: dados comprovam a preocupante redução no nº de docentes da rede estadual


Ao longo dos últimos anos, uma série de estudos e pesquisas alertam sobre a ameaça de um “apagão” de professoras e professores em todo o Brasil. Em sua maioria, os dados apontam que o principal motivo para um cenário tão caótico está no desinteresse pela carreira de educador(a). A própria Secretaria de Educação do RS (Seduc) já admitiu, através de estudos elaborados pelo governo do Estado, que o déficit para 2030 será de cerca de 14 mil docentes na rede estadual de ensino.

Desvalorização salarial, sobrecarga de trabalho, mudança na grade curricular e reforma do Novo Ensino Médio, são apenas alguns dos problemas que levam educadoras(es) a desistir ou sequer cogitar o ofício de ensinar.

De acordo com dados do Censo Escolar 2023, divulgados pelo INEP e analisados pelo Dieese, assim como a quantidade de instituições educacionais administradas pelo governo do RS tem encolhido de forma sistêmica, o quadro de professoras(es) também está em vertiginoso processo de encolhimento. Em 2022 o estado totalizava 38.452 professoras(es) na rede estadual em sala de aula, em 2023, esse contingente passou para 37.660, portanto uma queda de 2,1% (-792).

O estudo mostra ainda que a queda no número de docentes no estado vem crescendo desde 2016, o que ocasionou uma redução de 22,4% no quadro, ou 10.859 docentes a menos em regência de classe nesse período. A maior redução ocorreu em 2019, primeiro ano do mandato de Eduardo Leite (PSDB), com uma queda de 8,2% em relação ao ano anterior.

A tesoureira-geral e representante da Comissão de Educação do CPERS, Rosane Zan, destaca que a principal causa do apagão é a desvalorização profissional. “São baixos salários, acúmulo de trabalho e também as mudanças na sociedade que modificam o trabalho docente”, destaca a dirigente.

“Aqui no Rio Grande do Sul estamos há quase 10 anos sem um reajuste real e o que deveria ser vantagem, um salário digno, acaba se tornando uma desvantagem. Precisamos de um governo que invista na educação pública e que priorize esse serviço tão importante para a nossa sociedade”, conclui Rosane.

Sobrecarga de trabalho e desvalorização: por que docentes estão desistindo da profissão?

“Não vale a pena! Temos que trabalhar em diversas escolas e fazer bicos para complementar o salário. Eu, que não tenho filho, já é bem complicado, imagina quem tem. Nos colocam com um monte de disciplinas, mas diminuem a hora atividade, então em que momento tu vais preparar aula? Não temos nenhum apoio, nem energia.  Eles só te mandam aquelas cartilhas das trilhas e esperam que tu absorvas aquilo, como uma máquina”, desabafa a professora de espanhol Natália P., de 27 anos, que deixou de lecionar no Estado em 2024.

O sonho de ser professora em escola pública foi destruído ao constatar como está realmente funcionando a vida diária das(os) educadoras(es) nas instituições estaduais de ensino, sob a gestão de Eduardo Leite (PSDB).

“Eu demorei muito tempo para tomar essa decisão. As pessoas entram com um brilho nos olhos e saem decepcionados, tristes, em razão de como as coisas funcionam ou não funcionam nesse ambiente. Por exemplo, é uma sacanagem do governo diminuir sem mais nem menos a carga horária de componentes importantes para a educação dos estudantes”, frisa a educadora.

Com as mudanças na grade curricular devido ao Novo Ensino Médio, a situação da professora de espanhol ficou ainda mais difícil.  “Eu acabei perdendo as minhas turmas e fiquei só com EJA. Eu olhava os meus colegas tendo que dar aula de tudo que é disciplina, menos a que estudou. Me deram literatura, projeto de vida, religião, redação. Sendo que entrei como espanhol, eu virei uma professora meio tapa buraco”, recorda.

Com o passar do tempo a educadora conta que foi adoecendo com a situação e o que era alegria virou tristeza: “Eu estava adoecendo, ano passado houve situações que eu saia chorando do trabalho. Eu fechava a porta do carro e começava a chorar. Neste ano, já no primeiro dia do ano letivo, eu não fui e na terça fui lá e me demiti, pois eu já estava com uma ansiedade horrível de viver tudo aquilo de novo. Porque ano passado foi muito pesado. E isso é uma unanimidade entre os colegas, seja contratado ou nomeado. Então pensei, não dá, não vou passar por isso esse ano, não vou aguentar”, lamentou.

A docente destaca que a situação das(os) professoras(es) e funcionárias(os) de escola é uma consequência da atual gestão do estado, que sacrifica e desvaloriza cada vez mais a categoria. “É horrível o que esse governo faz. Acho que é o pior que tem, porque ele diz “a gente dialoga”, mas no fim, eles têm a maioria na Assembleia e votam o que eles querem e é isso. Isso também pesou na minha decisão, eu acho muito difícil que essa situação melhore com a atual gestão”, finaliza.

A professora, que está acabando seu mestrado, vai começar semana que vem em uma escola privada e lamenta a diferença entre as duas redes no estado. “É um abismo gigante entre os estudantes das escolas públicas e privadas. Os alunos da escola privada continuam tendo espanhol, pois é uma disciplina importante para a formação deles. Enquanto os estudantes da escola pública são cada vez mais privados de um ensino de qualidade”, afirma a educadora.

Contratação precária também afasta educadores

O Censo Escolar 2023 escancara o processo de precarização na contratação dos docentes nas redes estaduais. No Rio Grande do Sul, 59,2% das(os) professoras(es) que estão em sala de aula possuem contratos precários, ou seja, não são concursadas(os), efetivas(os) ou estáveis.

Vale destacar ainda que a pesquisa do INEP não analisa o contexto das(os) funcionárias(os) de escola, mas nas diversas visitas que o CPERS realiza às instituições de ensino, a falta dessas(es) importantes profissionais fica evidente. O Radar do Sindicato sobre a real situação das escolas estaduais registrou que, até o dia 27 de fevereiro deste ano, faltavam 272 profissionais nas escolas estaduais que responderam à pesquisa. 

Para o CPERS, a diminuição de docentes é resultado da política de desmonte da atual gestão estadual, que valoriza a educação somente no discurso. O governo Eduardo Leite (PSDB) não realiza concurso para suprir as reais necessidades da rede, retira direitos e aumenta ainda mais a defasagem salarial da categoria.

Reafirmamos que é urgente a valorização da categoria, através de salário digno para as(os) professoras(es) e funcionárias(os) de escola, da ativa e aposentadas(os) – com ou sem paridade. Por isso, educadoras(es) de todo o Rio Grande do Sul, participem da Assembleia Geral de Mobilização por valorização salarial para a categoria, que será realizada dia 22 de março, a partir das 13h30, na Casa do Gaúcho, em Porto Alegre. Vamos juntos decidir os próximos passos da nossa luta por salário digno!

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