CPERS e AOERGS promovem aula pública em celebração ao centenário de Paulo Freire


“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.”

O CPERS e a AOERGS realizaram aula pública na manhã desta terça-feira (14), no Salão de Atos Tereza Noronha, no 9º andar da sede do Sindicato. O evento acontece na semana em que se celebra o centenário de Paulo Freire, patrono da educação brasileira.

O encontro debateu temas do legado deixado por Paulo Freire no contexto do cenário político e educacional, onde a educação pública é nitidamente atacada pelos governos de Eduardo Leite (PSDB) e Jair Bolsonaro.

A coordenadora da Comissão de Educação do CPERS, Rosane Zan, fez uma breve análise da importância de Paulo Freire para os educadores(as) e para toda sociedade.

“Paulo Freire nos acompanha desde o início da nossa trajetória de luta. Então aquela frase que diz que o educador se eterniza em cada ser que educa. É com essa frase que iniciamos o nosso encontro”, destacou.

O 2º vice-presidente do CPERS, Edson Garcia, falou da importância de celebrar os 100 anos de Paulo Freire.

“Um dia simbólico, um dia de luta e de vigília. Eu falo com tristeza e com alegria. Com tristeza pois a gente não investe numa carreira para estar todos os dias exigindo que o governo se lembre dos educadores(as) no orçamento ou que nos atenda minimamente. E falo com alegria porque esse símbolo tão forte que é o CPERS Sindicato está sempre mobilizado em defesa dos trabalhadores e das trabalhadoras da educação”, destacou Edson.

O legado de Paulo Freire

Selvino Heck, ex-deputado estadual e membro do Conselho Deliberativo do CAMP e da Coordenação do CEAAL Brasil, lembrou de algumas importantes obras de Paulo Freire que se enquadram muito bem para os tempos que estamos atravessando.

“Temos que juntar hoje a pedagogia das oprimidas e dos oprimidos com a pedagogia da indignação e a pedagogia da esperança. Se conseguirmos juntar esses três vamos mudar esse país. Mudar é difícil, mas é possível. Se quisermos mudar o mundo temos a possibilidade. É difícil, mas é possível”, destacou.

Margot Andras, professora e diretora do Sinpro, contou que conheceu Paulo Freire na Unicamp e que por onde ele passava inspirava todas e todos.

“Em 1997, ele estava muito indignado. Paulo Freire via que as coisas não estavam acontecendo, imagina como estaria hoje. Vendo a retirada da Dilma e a entrada do neofacismo no país”, afirmou.

A diretora lembrou que Paulo Freire falava que cada um é diferente, mas cada um tem o seu lugar na sociedade. “Freire falava que precisamos tirar as pessoas da invisibilidade social. Para ele todo sujeito que se vê reconhecido, vai buscar seu lugar na sociedade”, relata.

A historiadora e mestranda em Educação pela UERGS, Ana Maria Baldo, falou de duas obras do patrono “Educação e atualidade brasileira”, de 1959 e “Educação como prática da liberdade”, de 1967. Para a educadora essas duas obras trazem uma visão mais sociológica do que propriamente pedagógica de Paulo Freire.

A educadora falou as pessoas têm pouco conhecimento de Freire, do que o filósofo realmente defendia. “Paulo Freire é mais que um método de educação. Ele criou um projeto de sociedade. A sua proposta nunca foi só educar jovens e adultos. A proposta sempre retirá-los da condição de oprimidos.”

Para Ana, um dos motivos de Paulo Freire ser tão odiado e detestado por algumas pessoas é porque que ele busca a transformação social.

A mestranda também destacou a pedagogia da esperança. “Esperança surge quando há desesperança. Mas a desesperança não pode se transformar em desespero. Freire deixa muito claro nessa obra que essa desesperança tem que transformar ação, luta e defesa.  Apesar da categoria de professores(as) e funcionários(as) de escola estar passando hoje por uma situação de desesperança, agir com desespero não vai ser a solução. Precisamos transformar em ação, pensada, dialogada, produzida, construída coletivamente, mas com foco no diálogo”, finalizou.

A presidente do Conselho Municipal de Educação de Porto Alegre, Fabiane Pavani, explicou que com as leituras de Freire aprendeu a fazer a denúncia – “porque a denúncia também nos organiza.”

“Não posso começar a minha fala sem abordar a política ultra neoliberal de Bolsonaro e Guedes. Essa economia que não está a serviço dos direitos sociais, direitos humanos, que não está a serviço do nosso povo e da nossa nação. Que tem penalizado a população negra e indígenas e que tem intensificado a homofobia. Que sua política genocida já causou mais de meio milhão de mortes nesta pandemia”, destacou.

Fabiane frisou a importância de Freire para a sociedade e para a educação. “O que me toca e representa em Freire é a ideia de que a educação é uma grande instrumento para resistir à opressão. Paulo Freire sempre defendeu que a educação não se faça somente dentro da escola, mas em toda sociedade e comunidade”, esclareceu a educadora.

No final do encontro, a diretora Rosane Zan mandou um recado para o governador Eduardo Leite.

“Estamos há sete anos com salário congelado, muitas vezes parcelados e sem reposição. Leite precisa ouvir essa categoria que sofre com o seu descaso. A educação pública do Rio Grande do Sul segue na resistência e na luta por dias melhores”, finalizou.

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