CPERS debate preconceito racial e combate ao racismo


Nesta quarta-feira (27), dezenas de educadoras(es), representantes dos 42 núcleos do Sindicato, participaram do Encontro do Coletivo de Igualdade Racial e Combate ao Racismo. A atividade ocorreu no 9º andar da sede do CPERS, ao longo do dia.

O 2º vice-presidente e coordenador do Departamento de Combate ao Racismo do CPERS, Edson Garcia, falou sobre a história de luta dos negros no país, ressaltando as grandes barreiras que ainda precisam enfrentar para combater o racismo e o preconceito sofrido diariamente. E também fez uma breve análise da conjuntura política atual no Brasil.

“Essa política neoliberal instalada no país é racista, machista e homofóbica. Nós estamos sem projetos para a educação. No momento em que não temos políticas para as áreas da educação e da saúde, não temos mais perceptivas, nem sonhos. Estamos retrocedendo drasticamente. Essa linha política não vem para nos fortalecer. Por isso temos que, cada vez mais, nos unir e somar forças”, concluiu Edson.

Garcia também falou sobre a truculência da brigada militar contra os educadores(as) no final da Assembleia Geral da categoria, realizada nesta terça-feira (26), na Praça da Matriz. “Dói receber cacetada na cabeça, chutes e spray de pimenta nos olhos.  Mas hoje, estamos conseguindo mostrar para a sociedade gaúcha a verdadeira face do governador Eduardo Leite”, destacou.

Desafios das mulheres negras na sociedade

“Sou discriminada duas vezes, por ser mulher e por ser negra. Sabemos que temos que enfrentar muita dor para representar, sermos ouvidos e valorizados. Temos que lutar para que nos valorizem como profissionais competentes que somos. Ainda não ocupamos cargos de comando como deveríamos. Estamos aqui para exigir que sejamos realmente vistas e valorizadas. Espaços como esses são estratégicos para que possamos nos transformar”, afirmou Isis Marques, secretária de Combate ao Racismo da Central Única (CUT).

Ela conta que quando foi assumir a vaga no banco no qual trabalha, sua mãe a orientou que anotasse tudo para não ser vista como incompetente. “Eu nunca esqueci aquilo. Ela sabia do que estava falando porque já havia sofrido discriminação e não queria que eu também passasse.”

“Não somos respeitadas como mulheres. Se tu te atrasou é porque estava te pintando, não é porque estava na luta. É o que dizem sobre a gente. Nos preocupamos com irmãos, pais e maridos, enquanto eles estão livres para comandar e seguir suas carreiras e nós não. Ainda temos que conquistar nossa valorização”, afirmou.

“Nós, sindicalistas, entendemos que o sindicato é uma escola. Aqui, entendemos como a sociedade se organiza e se agrega. Nós precisamos nos ver como iguais. Estamos aqui para aprender que racismo não é um preconceito, é uma violência. Vocês são lideranças, têm que exigir que dentro de cada escola se adote uma postura anti-racista. Temos que nos enxergar como elementos fundamentais dentro da sociedade”, finalizou.

O racismo dentro da escola 

Durante a tarde, os presentes receberam a palestra da  professora da rede pública e estadual e secretária nacional de políticas de combate ao racismo da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Anatalina Lourenço.

Para Anatalina, um dos principais instrumentos de enfrentamento ao racismo é a escola. “O racismo passa pela ideia de descolonizar o currículo, ou seja, a possibilidade de uma mudança ao trato da questão étnico-racial na escola e na teoria educacional”, explica.

“Ser negra é uma decisão política, pois quando você decide ser negra sabemos do preconceito que vamos enfrentar.” Anatalina pondera. “Não basta lutar contra o racismo, tem que ser anti-racista. Pra nós mesmos não praticarmos o racismo”.

Durante o debate, professoras e funcionárias de escola relataram suas experiências dentro das escolas, em suas cidades e na sociedade em geral, denunciando que o preconceito e o racismo fazem parte diariamente de suas vidas.

“Sou a primeira diretora negra do 21º Núcleo (Uruguaiana) e tenho muito orgulho disso. A próxima foto na galeria de diretores será a minha. Minha cidade é muito racista, muito preconceituosa. Mas seguimos lutando pela igualdade racial”, disse Zila Fidel, diretora do 21º Núcleo.

“Em nenhum momento quando saio com os meus alunos eu sou vista como professora. Sou sempre vista como funcionária da limpeza da escola. É um paradigma que a sociedade cria”, desabafou a professora Eliane Duarte Cunha, do 6º Núcleo (Rio Grande).

“Hoje foi um dia rico com falas de duas mulheres importantes na luta pelo combate ao racismo. Saímos daqui melhor do que entramos e fortalecidos para a luta”, afirmou Edson no final da atividade.

O Encontro do Coletivo encaminhou algumas demandas como  a criação do Coletivo de Combate ao Racismo em cada núcleo do Sindicato,  a escolha de um nome para o Coletivo do CPERS e a criação de um grupo de WhatsApp para organizar os próximos encontros e a luta.

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