Após Encontro Pedagógico, educadores lançam carta com preocupações 


Após dois dias de intensos debates sobre o presente e o futuro da escola pública, o Encontro Pedagógico do CPERS, promovido pelo Departamento de Educação, chegou ao fim nesta sexta-feira (8).

Centenas de educadores(as) da rede estadual do Rio Grande do Sul reuniram-se nos dias 14 de dezembro de 2020 e 8 de janeiro de 2021 para refletir sobre o Ensino Híbrido, Ensino Remoto, Novo Ensino Médio, a Avaliação e o Ano Letivo de 2020/2021.

Ao fim do encontro, educadores lançaram uma carta norteadora da luta e da resistência da categoria.

A diretora do Departamento de Educação, Rosane Zan, abriu os trabalhos e lembrou que 2021 marca o centenário de Paulo Freire.

“Em um tempo em que se falava muito em formar educandos participativos, Paulo Freire nos diz que sempre temos que viver em constante ação e reflexão. Esse debate é fomentado nisso e deve ser feito em todo o Brasil. Estamos começando pelo Rio Grande do Sul”, destacou.

“Quero agradecer o empenho dos núcleos para que as pessoas participassem desse debate, para organizarmos a luta em 2021. Não será um ano fácil. A pandemia não terminou e há um negacionismo muito forte quanto a isso em nosso país. Continuaremos com o nosso trabalho de dizer para os pais que não levem seus filhos às escolas enquanto não houver vacina para todos e garantir a segurança dos nossos professores e funcionários”, destacou a presidente do CPERS, Helenir Aguiar Schürer.

Para o presidente da CNTE, Heleno Araújo, esses encontros são essenciais para articular a resistência e unidade na luta ao longo do ano. Em dezembro, o conselho da confederação aprovou medidas norteadoras num eixo que estrutura as ações para 2021, com a participação social de todos: “A nossa ideia é dar uma base legal que nos dará forças e condições para fazer o enfrentamento necessário”.

Na ocasião, Heleno afirmou que os temas colocados durante a reunião estão impactados pelas ideias neoliberais infiltradas em todos os governos, independente da política partidária.

“Não podemos aceitar suposições que continuam em nosso país de que precisamos apenas cumprir tarefas, sem nenhuma contestação, seja no governo federal, estadual ou municipal”, afirmou.

“Temos como exemplo o novo ensino médio, que está na pauta do nosso debate e trouxe os elementos neoliberais e privatizantes para dentro dos espaços da escola”, completou o presidente Heleno.

Novo Ensino Médio e Ensino Híbrido

Sobre o Ensino Híbrido, Marta Vanelli, Secretária de Formação da CNTE, que escreveu um artigo sobre o tema, se desdobrou a refletir sobre como será o dia a dia na escola com este sistema. 

“A gente precisa começar a se preocupar, senão pode acontecer como aconteceu com as atividades remotas e a distância no início da pandemia, com o massacre aos trabalhadores da educação trabalhando além da sua jornada de trabalho”, pontuou.

Para Marta, a pandemia comprovou que a educação a distância é muito mais trabalhosa que a presencial. Nesta última, o processo é mais coletivo, com um contato diário com os alunos que facilita o aprendizado a partir de um acompanhamento mais próximo com o estudante, diferente de como é o ensino à distância.

“É importante pensarmos o sistema híbrido para refletirmos a nossa própria resistência. Esse sistema vem para ficar e me preocupa como vem sendo implantado. Como não tem nenhuma regulamentação, cada um inventa da forma que quiser o sistema e isso tem um efeito direto na nossa jornada de trabalho”, frisou. 

>> Confira aqui o artigo “Ensino Híbrido: reflexões para o debate”, escrito por Marta Vanelli.

Matheus Saraiva, doutorando da UFRGS, explanou sobre o Novo Ensino Médio e o Ensino Híbrido.

“Pensando na questão do currículo, a história do Ensino Médio no Brasil é de exclusão”, explicou Saraiva, cuja pesquisa trata da política e dos números na educação, que são deliberadamente ignorados.

Para ele, desde 2016, é notório que o processo dual e pragmático de ensino é mais empobrecido para aqueles com menos condições financeiras.

Conforme a pesquisa, 30,2% da população de 15 a 17 anos não está matriculada no Ensino Médio. O total de alunos do EM deveria saltar de 357.808 em 2016 para 413.558 em 2024. Ainda assim, as matrículas na rede estadual diminuíram 18% de 2009 a 2017 (63.482 indivíduos).

>> Confira o levantamento completo aqui.

Os dados também revelam problemas de infraestrutura nas escolas da rede estadual e falta de valorização profissional. Dos educadores, 51,7% não ganham o piso; 87,1% não ganham o mínimo estabelecido pelo Dieese; e 45% exercem outra atividade para aumentar a renda pessoal.

“Há um enxugamento de avaliação profissional, carência dos laboratórios e metade dos vínculos são temporários. Esse é o diagnóstico das escolas”, explicou.

Para ele, é importante valorizar o PNE, o Fundeb e o CAQ como eixos estruturantes da educação pública, articulando políticas sociais nas quais a escola é parte, mas não solução única para problemas complexos. 

O papel do educador na formação social do aluno

O representante dos Funcionários da CNTE,  José Valdivino Moraes, discorreu sobre a importância do educador para a formação do aluno.

“Muitas vezes a criança chega na escola com carência afetiva e é papel do educador estabelecer um laço mais próximo com o estudante. Nós, professores e funcionários, dividimos essa tarefa no desenvolvimento afetivo e moral a partir do nosso trabalho”.

Valdivino demonstrou preocupação com a educação a distância, que traz um grande prejuízo no desenvolvimento humano do estudante. Ele afirma que, ao mesmo tempo que a educação e a tecnologia servem para informar, elas também podem desinformar e manipular a sociedade.

O educador também explanou sobre a importância da aplicação dos recursos do Fundeb para o pagamento de remuneração dos profissionais da educação, bem como olhar no artigo 212 da Constituição, o qual estabelece o mínimo de 25% da receita dos impostos para a manutenção e desenvolvimento do ensino. 

O debate também ouviu membros das associações e Conselho Estadual de Educação. Após a discussão de ideias, os participantes leram e aprovaram uma carta apontando os rumos para a resistência e definiram enviar o documento para a Seduc e outros órgãos. 

Leia a íntegra abaixo:

CARTA DO ENCONTRO PEDAGÓGICO DO CPERS

14 de dezembro de 2020 e 8 de janeiro de 2021

Em meio à pandemia da Covid-19, que já ceifou milhares de vidas, vivemos um momento de duras mudanças na educação básica no Rio Grande do Sul. 

Professores e funcionários de escola, diante dos desafios impostos, enfrentam uma enorme sobrecarga de trabalho e não encontram o apoio  necessário para exercer seu trabalho.  Seguem com salários cada vez mais minguados e sem reajuste há seis anos.

Passamos a ser uma máquina do sistema que não vê ou faz questão de não perceber que lidamos com seres humanos e que os preparamos para a vida. 

Neste cenário, o governo Eduardo Leite impõe uma consulta pública através do Referencial Curricular Gaúcho do Novo Ensino Médio, às vésperas do final do ano de 2020, deixando claro o descaso com a educação e o desespero de implementar a privatização e a mercantilização da educação. 

Ao impor um currículo sem construí-lo no chão da escola, a Secretaria Estadual de Educação (Seduc) evidencia a falta de diálogo com a categoria. Exemplo disso foi a baixa adesão dos trabalhadores em educação ao processo de escolha dos redatores do Referencial Curricular Gaúcho do Novo Ensino Médio. 

O Departamento de Educação do CPERS, atento a todas as questões que envolvem a educação pública gaúcha, fez a denúncia, pois acredita numa escola de transformação, cidadania, humanização, senso de coletividade e de troca de experiência e não em uma escola imposta pelo mercado.

Esperamos que esse Encontro Pedagógico possa ser um balizador dos conceitos e princípios que fundamentam a pedagogia freireana para as questões curriculares, na perspectiva de apontarmos elementos que orientem à elaboração de propostas e a valorização das experiências pedagógicas emancipatórias e eticamente comprometidas com a humanização. 

As mudanças nas matrizes curriculares precisam respeitar o contexto no qual o alunado está inserido, a gestão democrática no exercício de sua autonomia e a descentralização do poder, sociabilizar e contribuir na orientação de novos caminhos para elaboração de políticas comprometidas com a educação pública, laica, democrática e de qualidade social.

Que o ensino híbrido e o ensino remoto sejam um meio a ser usado em tempos de pandemia e não política a fim. A nossa luta a partir de agora deve ser por tecnologias públicas que sejam suporte pedagógico na sala de aula.

     

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